O GOZO DE SI

NEGAÇÃO D INDIVÍDUO

 

 

 

 

 

 

Stirner supunha estar “no limiar de uma época”, em cuja entrada estaria inscrita não mais a “fórmula apolínea ‘Conheça-Te a Ti mesmo’, /…/ mas ‘Valoriza-Te a Ti mesmo!’ .

Segundo ele, os indivíduos vivem preocupados e oprimidos pela tensão em conquistar a vida, seja a vida celeste, seja a vida terrena, o que os impede de “desfrutar a vida”. Por isso, conclama os indivíduos para o gozo da vida, que consiste em usá-la “como se usa a lâmpada, fazendo-a arder. Utiliza-se a vida e, por conseqüência, a si mesmo, vivendo-a; consumindo-a e se consumindo. Gozar a vida é utilizá-la”.

O mundo religioso “procurava a vida”, mas este esforço para alcançá-la se limitava em saber “ ‘em que consiste a verdadeira vida, a vida bem aventurada, etc.? Como atingi-la? O que fazer para tornar-se homem, para estar verdadeiramente vivo? Como preencher esta vocação?’”. A procura pela vida indica a procura por si mesmo e “quem se procura ainda não se possui, mas aspira ao que deve ser”; por isso, durante séculos, diz Stirner, os homens apenas têm vivido na esperança, entretidos com “uma missão, uma tarefa na vida”, com “algo para realizar e estabelecer através de sua vida, um algo para o qual sua

 

 

vida é somente meio e instrumento, algo que vale mais que esta vida”. De sorte que os que se preocupam com a vida não têm poder sobre sua vida presente, pois “devem vivê-la com a finalidade de merecer a verdadeira vida, devem sacrificar inteiramente sua vida por esta ambição e por esta missão”[90], o que resulta na perda de si, na cisão entre sua vida futura, a qual deve atingir e sua vida presente e efetiva, que deve ser sacrificada em prol da primeira.

 

Além do mais “ao se perseguir impetuosamente a si mesmo /…/, despreza-se a regra de sabedoria que consiste em tomar os homens como eles são, ao invés de tomá-los como se gostaria que eles fossem, instigando-os, por isso, a irem atrás do Eu que deveriam ser, ‘ambicionando fazer com que todos os homens tenham direitos iguais, sejam igualmente respeitados, igualmente morais ou racionais’”.

 

Admitindo que, sem dúvida alguma, a vida seria um paraíso se os homens fossem como deveriam ser, Stirner observa, porém, que “o que alguém pode se tornar, ele se torna”, pois “possibilidade e realidade coincidem sempre. Não se pode fazer o que não se faz, tal como não se faz o que não se pode fazer”.

 

Portanto, o que os indivíduos são, bem como as capacidades que possuem, manifestam- se sempre, qualquer que seja a circunstância ou estado em que eles se encontrem. Assim, “Um poeta nato pode ser impedido pelas circunstâncias desfavoráveis de atingir o cume de seu tempo e de criar, após sérios e indispensáveis estudos, obras de arte, mas ele fará versos, quer seja criado de fazenda ou tenha a oportunidade de viver na corte de Weimar. Um músico nato fará música, quer seja com todos os instrumentos ou somente com um canudinho. Uma cabeça filosófica nata se confirmará filósofo universitário ou filósofo de aldeia e, enfim, um imbecil nato /…/ permanecerá sempre um cérebro limitado,

mesmo que ele tenha sido adestrado e treinado para ser chefe de escritório ou engraxe as botas deste chefe”.

 

 

Segundo Stirner, “Nós somos Todos perfeitos! Nós somos, a cada momento, tudo o que podemos ser e não precisamos jamais ser mais do que somos”.

 

Por isso, “um homem não é ‘chamado’ a nada, não tem ‘tarefa’ nem ‘destinação’, tanto quanto uma flor ou um animal não têm nenhuma ‘missão’. A flor 28não obedece à missão de se perfazer, mas ela emprega todas as suas forças para usufruir o melhor que pode do mundo e consumi-lo; ela absorve tanta seiva da terra, ar da atmosfera e luz do sol quanto pode receber e armazenar.

O pássaro não vive segundo uma missão, mas emprega suas forças o quanto pode /…./. Em comparação com as de um homem, as forças de uma flor ou de um pássaro são mínimas, e o homem que empregar as suas forças capturará o mundo de modo muito mais potente que aqueles. Ele não tem missão, mas forças que se manifestam lá onde elas estão, porque seu ser não tem existência senão em sua manifestação /…/”, o que ele faz, em realidade, a cada instante de sua vida.

 

Stirner assevera que o indivíduo se afasta de seu gozo pessoal quando crê dever servir a algo alheio. Servindo apenas a si torna-se “não apenas de fato /…/, mas também por (sua) consciência, o único”. No “único, o proprietário retorna ao Nada criador do qual nasceu”porque a designação único é tão-somente um nome, uma designação ‘genérica’ que indica o irredutível de toda individualidade, cujo conteúdo e determinação são específicos e postos por cada indivíduo, especificamente, já que não há algo que os pré-determine.

O egoísmo, no sentido stirneriano do termo, refere-se, por um lado, ao fato de que cada indivíduo vive em um mundo que é seu, que está em relação a ele, que é o que é para ele, motivo pelo qual sente, vê, pensa tudo a partir de si. Por outro lado, diz respeito tanto às pulsões e determinações que compõem a esfera exclusiva do indivíduo, quanto ao amor, à dedicação, à preocupação que cada individualidade nutre por si. O homem, na ótica de Stirner é ego.

 

Porém, o fato de constituírem eus não torna os indivíduos iguais, uma vez que a condição de possibilidade de ser não se deve ao fato de serem todos egoístas, mas em terem força para expandir seu egoísmo. Daí, cada eu ser único e sua individualidade constituir a única realidade a partir da qual se põem suas possibilidades efetivas. Não se pautando por nenhum critério exterior, o único não se deixa determinar por nada, a não ser pela consciência de sua autonomia como indivíduo dotado de vontade e força, razão pela qual é livre para desejar e se apossar de tudo o que lhe apraz através de sua potência única. É um ser ávido, movido pela única força capaz de torná-lo si mesmo: o egoísmo. É, enfim, o indivíduo que se põe como centro do mundo e prefere a si, acima de todas as coisas; que orienta suas ações, estabelece suas relações com o outro-de-si e dissipa sua existência visando somente a um fim: satisfazer a si mesmo.

 

 

 

 

 

 

 

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