A DESSACRALIZAÇÃO DA LINGUAGEM

DESSACRALIZAÇÃO

Um estudo do pensamento stirneriano não estaria completo sem uma consideração dos aspectos, explícitos e implícitos, de suas concepções acerca da linguagem e da comunicação bem como de sua prática linguística e comunicativa. A forma assistemática do discurso desenvolvido no Único e sua Propriedade bem como a explicita adesão ao nominalismo presente na Rezensenten são temas que me arrisco a considerar como cruciais para a compreensão da proposta de Max Stirner.

A importância desses tópicos, embora tenha sido percebida por alguns estudiosos não foi objeto, até onde tenho conhecimento, de nenhum estudo abrangente. O texto que se segue tem como uma de suas metas dar um primeiro passo para superação dessa carência. Tomando como ponto de partida a hipótese de trabalho que nos conduziu até aqui, a de que a filosofia stirneriana constitui-se como uma tentativa de dessacralização da cultura, iremos acompanhar os aspectos lingüísticos e as estratégias retóricas que nela são desenvolvidas no sentido de evitar que a mesma se tornasse autocontraditória.
Uma crítica das pretensões de universalidade e objetividade do pensamento poderia ser considerada autocontraditória caso reivindicasse para si mesma a generalidade que condena nos seus interlocutores. Stirner estava cônscio desse problema. Por isso ele tenta deslocar o debate jovem hegeliano de um esquema essencialista, o qual procuraria oferecer um relato acerca de nossa verdadeira essência, para o interior de um contexto onde constituem-se como parâmetros avaliativos a utilidade, a verossimilhança e o interesse dos indivíduos concretos aos quais se destinam os argumentos da modernidade. Outra meta que a proposta stirneriana de dessacralização da linguagem visa atingir é a da valorização do senso comum.

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Para Stirner no decorrer dos séculos, os indivíduos de carne e osso teriam sido constantemente submetidos a diversas manifestações do Sagrado: “eram idéias, princípios, sistemas atrás uns dos outros, e nenhum conseguia conter definitivamente a contradição do homem profano, do chamado egoísta”. (UP, p.69, grifo do autor). Embora tenha se insurgido diversas vezes contra essa dominação a “cabeça dura do homem comum” teria “perdido a aposta” e sido obrigada a “dobrar-se e prestar honras a tais poderes superiores”. Stirner aponta os possíveis caminhos para a rebelião do senso comum contra tais potestades. Uma dessas estratégias foi desenvolvida no capítulo precedente, a dessacralização da identidade com base na noção de corpo. Nosso estudo agora irá explorar a proposta stirneriana de dessacralização sob o viés da linguagem e do conhecimento.

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A partir da análise da tensão entre nomes (Namen) e conceitos (Begriff) que perpassa a Recensenten (Resposta aos Críticos), iremos abordar os elementos da filosofia do Único e sua Propriedade em sua relação com o nominalismo que Stirner defende contra o “realismo” da filosofia de Feuerbach e mesmo do panlogismo Hegeliano. Como um elo final na cadeia da tradição hegeliana, a filosofia stirneriana não representa tão somente a desistência de todas as tentativas de redefinição da noção de razão, ou do empenho em encontrar a verdadeira essência humana por detrás da finitude dos homens concretos. A relação entre Hegel e Stirner pode ser traçada também pela via da estratégia que consiste em modificar a compreensão de certos problemas através de uma redefinição dos termos, palavras e pressupostos dos quais estes são compostos.

É a partir da inserção do discurso stirneriano nessa tradição de redescrição dos termos de um determinado debate que iremos introduzir o estudo acerca da relação entre o nominalismo de Stirner e o Único e sua Propriedade.

 

 

 

 

 

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