A DESTRUIÇÃO DA CASA MAL-ASSOMBRADA ^

DESSACRALIZAÇÃO

Como podemos ver, Stirner descreve o desenvolvimento individual como um movimento permanente de auto-afirmação, busca da fruição, diante do não-eu. Mas esse movimento que teria na criação do espírito apenas um meio, é colocado em xeque quando os pensamentos ou predicados (homem, verdade, nação, estado, etc.) passam a determinar a conduta dos homens, e estes por sua vez passam a esforçar-se para dar a tais pensamentos abstratos um “corpo”, “realidade”, “auto-subsistência”, “objetividade” etc.

O que há em comum em todas estas tentativas de encontrar o concreto por detrás do abstrato é o movimento no interior do que Stirner chama de círculo mágico do cristianismo. Este seria, entre outras coisas, caracterizado pela insistência em esquivarse à aceitação do indivíduo em sua naturalidade, diferença e corporeidade. “Sempre se pensou ser preciso dar-me uma determinação situada fora de mim, e por fim quiseram até impor-me a idéia de que eu deveria reivindicar o humano, porque… sou homem.” (UP, p.282). Para o autor, uma vez constatados esses aspectos “patológicos” das diversas tentativas frustradas de dissolução de sucessivas hipóstases através da teoria, caberia então reconhecer que não é no pensamento nem na teoria que eu encontrarei a mim mesmo. Partindo da reflexão não me atingirei, pois o pensamento é tão somente um produto elaborado visando à promoção de minha auto-fruição (Selbstgenuß). Por conseguinte toda tentativa de encontrar a minha verdadeira essência nada mais é que uma estratégia mal sucedida de obter tal fruição enquanto indivíduo corpóreo, enquanto Único. A referência incontornável de todo pensamento àquele que o produz faz de mim o ponto central do meu mundo e do conceito, ou espírito, uma expressão vazia a qual apenas o seu criador, eu, posso dar conteúdo. Além disso, na redescrição fornecida por Stirner do nexo relacional eu-mundo, são relações de oposição e resistência que caracterizariam a existência, o que coloca os indivíduos em uma posição na qual cada um vale-se a si mesmo apenas com as suas próprias forças. Buscar o Sagrado na figura da objetividade e impessoalidade representa o esquecimento de si mesmo naquilo que criamos e a derrota diante do não-eu. Portanto, a concretude, buscada pelo desenvolvimento teórico que leva do Iluminismo aos jovens hegelianos e que assume nesse movimento a figura do Homem (Mensch) só pode ser encontrada no Único.
“Apenas eu possuo um corpo” afirma Stirner, e o Homem “sem mim, está perdido”
Cabe, nessa altura, comparar o nosso tratamento do pensamento stirneriano com o modo como alguns críticos tem enfrentado alguns aspectos de sua terminologia. John P. Clark, por exemplo, afirma que haveria um problema na aparente correspondência entre o Único stirneriano e seu corpo. Tal problema segundo ele seria facilmente verificável a partir do momento em que opomos a afirmação de que o indivíduo está em permanente desenvolvimento, através da criação de diferentes eus, com a afirmação de que ele é seu corpo, o que implicaria identificação com uma substância estável. “Apenas um movimento de abstração”, afirma Clark, “permitiria a identificação entre o corpo e um ego em desenvolvimento” (CLARK, 1976, p.22).
Ora, em primeiro lugar faz-se necessário observar, como já dito, o lugar que essa noção ocupa na narrativa stirneriana. Tratando-se de uma filosofia eminentemente relacional, todas as expressões nela utilizadas devem ser consideradas no quadro de oposições que constitui a descrição da vida dos indivíduos, além de no interior da polêmica na qual Stirner escreve sua obra. No primeiro caso, caberia observar que é no corpo que as injunções do mundo primeiro se fazem sentir, mas o indivíduo não deve ser confundido com seu corpo. O Único stirneriano é irredutível a qualquer predicado. Se a carne, ou o corpo, parecem estar mais intimamente entrelaçados na sua descrição da individualidade isso deve ser atribuído, em parte, à narrativa do desenvolvimento dos homens a partir dos “choques” entre estes e o mundo. Na infância “não chegamos a lado nenhum tentando nos convencer, e somos surdos aos motivos sensatos, aos princípios, etc.; mas já resistimos com mais dificuldade às carícias, aos castigos e coisas semelhantes”
Conseqüentemente o corpo seria o ponto de partida para o movimento de auto-afirmação do eu diante do não-eu, seja este último corpóreo ou não.
Tentamos nos impor ao mundo enquanto o não-eu tenta nos sobrepujar. Como uma propriedade, o corpo não estaria isento da referência ao seu proprietário e vice-versa “a Propriedade (Eingentum) depende daquele que é eu-proprietário” (UP, p.195). Não podemos, portanto, considerar que Stirner toma o corpo por uma substância estável, munida de certos predicados aos quais podemos nos referir sem levar em consideração o indivíduo/eu a quem pertence esse corpo.

A minha carne não é a carne deles, o meu espírito não é o espírito deles. Se os colocardes sob o chapéu universal de “carne, espírito”, isso são apenas pensamentos vossos, que não têm nada a ver com a minha carne e o meu espírito […] Mas, se eu não sou carne, não sou também propriamente espírito

A problemática levantada por Clark, penso, deriva da inobservância do referido aspecto relacional da linguagem stirneriana. Se levarmos em consideração tal aspecto, mesmo a alegação de solipsismo ou atomismo social, apontada por Karl Marx, Raul Diaz, Feuerbach e outros, deixa de fazer sentido. A centralidade atribuída por Stirner ao indivíduo como único, não exclui a interferência dos diversos fatores que compõem os contextos onde este se insere. Se para todo eu um não-eu é dado, e se este só pode ser descrito em relação aquele, como propriedade, o indivíduo também não pode deixar de levar em consideração o apelo mundano como sentido de sua auto-produção. Por isso o eu não é tudo, como afirma Fitche, mas dissolve tudo, pois sua auto-produção e produção do mundo é dissolução, consumo, utilização do mundo que visa à fruição. O Único não se coloca diante do mundo numa relação de conhecimento e reflexão, mas antes numa relação de uso e gozo, da qual o conhecimento é apenas uma das possíveis figuras. Uma abordagem teórica procura estabelecer certas conclusões que independem dessa relação. É nesse sentido que o filósofo afirma que a modernidade tem procurado dar corpo ao espírito.
Dessa maneira, podemos abordar o segundo aspecto citado da noção de corpo, o que deriva da inserção do discurso stirneriano na polêmica jovem hegeliana. Aqui a sua utilização recorrente visa transportar o debate jovem hegeliano do interior de um esquema crítico-especulativo (Hegel, Bauer) ou científico-realista (Feuerbach, Marx) para uma abordagem retórico-pragmática que, ao invés de apelar à verdade, recorre às inclinações mais sensíveis dos homens, e ao que supostamente seriam os aspectos genuinamente emancipatórios de suas próprias crenças. Este aspecto, que tem raízes no desenvolvimento conceitual que vai dos Kleinere Schriften até o Único e sua Propriedade merece alguma atenção, ainda que não constitua o cerne deste trabalho.
Os escritos dispersos de maior relevância da produção stirneriana evidenciam vários elementos em comum com a obra de Bruno Bauer publicada no mesmo período, todavia apresentam também temáticas que extrapolam os principais objetivos daquela mesma obra. Um destes elementos, presente de diversas maneiras, e algumas vezes em contradição com o jargão baueriano utilizado pelo autor, é o empenho em desenvolver uma concepção da individualidade que tenha nos aspectos afetivos, corpóreos, radicalmente particulares e possessivos as suas principais características. Nos escritos de 1842 a 1843, essa concepção da individualidade apresenta-se como um desaguadouro dos processos históricos, que descritos em chave baueriana, constituiriam o próprio percurso do Espírito (Geist) entendido como auto-consciência (Selbstbewusstsein).
É óbvio que a inadequação do caráter eminentemente “gnosiológico” e essencialista da terminologia baueriana em relação a tal concepção de individualidade conduz a problemas de coerência interna visíveis em alguns dos escritos dispersos. Penso que por esse motivo Stirner, na maioria dos seus textos, opta por formulações menos rígidas, no estilo solto do ensaio, como vemos em sua resenha dos Mistérios de Paris, de Eugène Sue. A utilização de uma linguagem coloquial, direta, pouco rebuscada, também é um recurso que vai sendo progressivamente mais utilizado em seus textos. Exemplos do processo de desenvolvimento da concepção de individualidade na obra de Max Stirner podem ser encontrados em textos como a Réplica a um Membro da Paróquia Berlinense no qual a noção de Razão aparece equiparada à de “Virilidade” e o “humano como aquilo que eu acolho como minha Propriedade” (KS, p.56).
Através de tal desenvolvimento, a terminologia stirneriana vai distanciando-se lentamente do vocabulário idealista de Bruno Bauer, na medida em que incorpora expressões menos abstratas como corpo e gozo de si. Esse distanciamento, por sua vez, visa traduzir o que ele denomina em O Falso Princípio de nossa Educação de espírito de nosso tempo (Geist unserer Zeit). Nesse breve artigo escrito para a Gazeta Renana em abril de 1842, Stirner descreve a contemporaneidade como um momento que, embora limitado pelas hesitações dos filósofos, está voltado para a valorização dos aspectos sensíveis e criativos do ser humano. Nesse texto, Stirner aborda duas diferentes correntes da pedagogia de seu tempo, aquela de orientação clássica e humanista e a de orientação utilitária ou realista. A proposta humanista aparece no texto como visando à produção de hierarquias, de diferenças, enquanto o realismo propõe a igualdade e universalidade. Contudo, ambos pensam o indivíduo a partir da comparação com o outro, e não permitem a criação do que ele chama de igualdade consigo. Neste texto o autor reclama que o indivíduo não deve ser concebido apenas como um espírito que segue ou assimila aquilo que lhe é imposto de fora, seja um saber do passado (humanismo) seja um saber do presente (realismo), mas, sobretudo, como alguém que cria tanto o mundo quanto a si mesmo. Vida natural e espiritualidade, ou realismo e humanismo, deveriam ser sintetizados na unidade do indivíduo “resumindo, a unidade e o todo poderio do eu que basta a si mesmo porque nada deixa subsistir fora de si” (KS, p.71). Este utilizaria tanto a educação humanista quanto o saber realista segundo os seus propósitos. Pode-se perceber nesse artigo a mesma tensão que no Único e Sua propriedade constituirá a crítica do materialismo Feuerbachiano e do idealismo de Bruno Bauer. Também se pode perceber que a utilização da noção de corpo por Stirner possui estreita relação com a crítica a ambos. Tal expressão por um lado, procuraria permitir a compreensão da individualidade como existência sensível e finita e por outro lado indeterminada e criativa. Todavia, para a realização final dessa meta, para encontrar “a palavra que define nosso tempo” seria preciso ainda ultrapassar as tendências clericais e dualistas para ele comuns a quase toda a tradição filosófica, cuja mais recente versão, em sua época, é justamente a filosofia jovem hegeliana.
O Único e sua Propriedade e a Rezensenten (Resposta aos Críticos), este último o artigo no qual Stirner responde às críticas de Feuerbach, Szeliga e Moses Hess, representaram o momento final do processo de desenvolvimento da filosofia stirneriana, o que naturalmente também implicou o abandono e conseqüente oposição à terminologia da filosofia crítica de Bruno Bauer. Compreendido por Stirner como um liberal humanista Bauer é caracterizado no Único como alguém que condena o egoísmo, enquanto ordena “reconhece a humanidade como tua verdadeira essência”.
Por sugerir o entusiasmo pela atividade crítica e eminentemente “humana”, algo que não seria tão somente uma propriedade minha, mas antes minha verdadeira essência, Bauer, assim como Feuerbach, apenas substituiria “o velho glória a Deus, pelo moderno glória ao Homem”. Segundo seu ponto de vista, Bauer e Feuerbach seriam os mais recentes exemplares da Modernidade, em sua inexaurível tentativa de espiritualizar o mundo, precisando para isso esmagar a “nobre essência do egoísmo”.
A tensão entre o que sou e o que devo ser, entre mim e minha essência, é que engendra as obsessões que dão sentido à minha vida, uma vez que me empenho em perseguir a minha verdadeira essência, em descobrir sua objetividade, em dar-lhe um corpo.
“O circulo mágico do cristianismo só subsiste enquanto nostalgia da idéia por sua corporeidade” (UP, p.285) e ele se quebraria se nos reconhecermos como os únicos que possuem um corpo. A noção de corpo em Stirner, como se pode constatar, escapa ao modo como as ciências positivas ou como os existencialismos a têm utilizado. Se Stirner diz que um pensamento conceitual espera ter um corpo, esse corpo almejado pelos modernos deve ser compreendido como auto – subsistência. Uma vez que atribuo essa característica a algo que é apenas minha propriedade, eu próprio me torno um fantasma, sem corpo, uma mera “aparência”, cuja verdade e realidade é dada pelo pensamento, pela essência. Assim a minha existência se torna uma “vida no céu do pensamento”; uma vida na qual “eu não sou a minha carne, eu sou espírito, apenas espírito.” (UP, p.72, grifos do autor) Contudo, ao reconhecer que todo pensamento é tão somente minha propriedade, e que sou eu que lhe confiro sentido e significado, eu equiparo auto-subsistência e vida, e reservo ambos apenas para mim, pois o Único é, sobretudo, a vida do Único. O pensamento emana de mim, visa a minha Fruição que é minha própria vida. Porque sou vivo eu tenho propriedades, entre elas a mais fundamental de todas: um corpo. Por outro lado, o Único determina-se em relação à sua propriedade e, portanto, também seria legítimo afirmar que eu sou o corpo que “tenho”.
Só quando nos amarmos em corpo e tivermos prazer em nós próprios, no nosso corpo e na nossa vida – mas isto só pode acontecer no homem adulto

– só então teremos um interesse pessoal ou egoísta (egoistisch), ou seja, um interesse, não apenas, digamos, do nosso espírito, mas uma satisfação total, satisfação de todo o indivíduo, um interesse que sirva o próprio ego (eigennützig) .

Para ganharem vida, as idéias precisam possuir-me, fascinar-me, tomar-me de um modo tal que eu considere que a realização plena de minha própria vida consiste apenas em seguir aquilo que elas prescrevem e reconhecem. Apropriar-me das idéias implica o contrário, tomá-las de tal modo que só tenham sentido se referidas de modo pleno a mim, enquanto seu proprietário, e à minha vida e gozo como sua função. Stirner sugere aqui a substituição da meta de atingir a pura verdade, núcleo de boa parte das concepções gnosiológicas de desenvolvimento humano na Modernidade, pelo propósito de obter o gozo da vida. Já não é a auto compreensão ou o auto-conhecimento que representam o sentido de nossa intervenção em relação ao mundo, tal qual lemos nas Lições da Estética hegeliana, onde tais intervenções tem o sentido de uma exteriorização de si. Nossa intervenção passa a ter um sentido diverso; sobretudo, tratase de obter poder, de afirmar-se; todas as atividades humanas nivelam-se, pois todas visam esse mesmo “objetivo”. Em nosso desenvolvimento queremos dissolver a rigidez ou sacralidade que algumas coisas oferecem a nossa intervenção, pois somente assim, “por detrás de tudo encontramos a nossa ataraxia, ou seja, ficamos imperturbáveis e impávidos na nossa oposição, na nossa supremacia, na nossa invencibilidade.” . Essa invencibilidade diante do mundo é uma das formas de entender o que o autor denomina de fruição-de-si.

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