A INDIVIDUALIDADE COMO PROCESSO

DESSACRALIZAÇÃO

Nessa altura, fica patente que a denúncia stirneriana da tentativa hegeliana de dar “corpo ao espírito” visa permitir uma nova compreensão do nexo relacional homemmundo, por um lado, e por outro visa permitir a redescrição de nossas identidades de modo não “gnosiológico”. A primeira meta é atingida através da referida narrativa do desenvolvimento individual a partir da oposição incontornável com entre eu e o não-eu.
A segunda meta, como uma decorrência natural da primeira, inicia-se com a consideração de que o corpo tem em relação a nossa identidade uma associação muito mais estreita que o pensamento discursivo. Pois aquele antecipa esta, que, por sua vez, tem na busca de fruição o seu sentido de ser.

 

De tal forma que, se preciso, atacamos os pensamentos para salvar a pele. Contudo, tal associação não deve ser entendida como uma mera relação causal, como se o corpo produzisse o espírito de modo espontâneo, imediato. “Ao criares o primeiro pensamento , crias-te a ti próprio, o pensador; pois não pensas antes de pensares um pensamento, ou seja, antes de o teres”. Se o espírito é criado, isto ocorre numa injunção do mundo, como uma reação aos seus desafios, e por isso não se pode afirmar que surge por um processo inteiramente espontâneo, ou necessário, mas antes como um resultado absolutamente contingente. A criação do espírito é parte do trabalho de auto-criação. Por outro lado, cabe sublinhar distinção que o filósofo faz entre simples pensamentos ligados a coisas e os pensamentos abstratos e conceituais, como vemos na descrição das diferenças entre a criança e o jovem.

A atitude inverteu-se completamente, o jovem assume um comportamento espiritual, enquanto a criança, que ainda se não sentia como espírito, foi crescendo num processo de aprendizagem desprovido de espírito. Aquele já não procura apoderar-se das coisas (por exemplo, meter na cabeça as datas da história), mas sim dos pensamentos escondidos nas coisas (ou seja, do espírito da história); o menino, pelo contrário, é capaz de compreender relações, mas não idéias, o espírito; por isso acumula matéria aprendida sem recorrer a procedimentos apriorísticos e teóricos, isto é, sem buscar idéias.

A primeira manifestação da atividade “gnosiológica” baseia-se na relação com o mundo de modo imediato, não generalizado; a passagem para atividade universalizante do pensamento é que caracteriza o surgimento do espírito. Nessa leitura, o pensamento conceitual não seria tão crucial para a compreensão de quem somos como filósofos como Platão e Kant acreditavam. Por conseguinte, levar a sério a proposta de Stirner implica ver a vida humana e nossas identidades como algo bem diferente de tudo de que os filósofos têm tentado nos oferecer. Quais as conseqüências dessa mudança? Em primeiro lugar é preciso pontuar que não apenas o conteúdo da identidade humana é redescrito por Stirner: a própria noção de identidade encontra-se transformada ao final da retórica dialética de Stirner. Se por identidade compreendermos a definição de um sujeito através do predicado que lhe é intrínseco, a noção de Único não pode figurar com uma descrição possível dela. Um juízo tautológico é o único elemento que ela oferece para referir-se a nossa identidade; essa mesma tautologia que a expressão Único pretende traduzir. Uma expressão que não é um conceito, nem é razoável que seja tratada como tal, mas apenas uma palavra, nome ou sinal, à qual apenas aquele a quem nós a aplicamos pode dar um conteúdo.
A suposta irredutibilidade do indivíduo reivindica que ao nos referirmos a ele o tratemos como um quem e não como um que. A segunda parte de O Único e sua Propriedade é dedicada ao desdobramento dos limites dentro dos quais é lícito, se é que se pode utilizar essa expressão aqui, oferecer uma descrição dessa compreensão da identidade. Dividida em Meu Poder, Minhas Relações e Meu Gozo Próprio, a segunda parte da principal obra do filósofo propõe uma nova chave para compreensão da vida dos indivíduos, uma compreensão privada de qualquer caráter de estabilidade e continuidade. O indivíduo, compreendido como Único é indefinível, inefável e inconcluso; se expressa, sobretudo, através do seu poder. Ele é, enquanto manifestação particular ou ação específica em dado contexto, tudo o que ele pode ser e fazer.

*

Em respaldo a essa idéia, a clássica divisão entre ato e potência é descrita por Stirner como uma mera divisão entre pensamento e pensamento efetivado por certo quantum de força. Para o Único o possível nivela-se com o imaginável. “Ora, a possibilidade mais não é do que a capacidade de pensar, e inúmeras vítimas sucumbiram a esse fantasma do imaginável.” O possível, ou o real, é apenas um pensamento que se efetiva, um produto da imaginação que se tornou concreto e “a possibilidade e a realidade coincidem sempre. Não temos a possibilidade daquilo que não fazemos, e não fazemos aquilo que não nos é possível.”. Se algo que consideramos possível não se realiza, só podemos concluir que na verdade não se tratava de uma possibilidade, pois não tínhamos poder bastante para efetivá-la. Da coincidência entre meus poderes e minha realidade seria natural derivarmos a conclusão de que cada um é apenas o que pode ser, não por uma limitação ontológica, mas por uma simples constatação na base da identificação do possível com o que se efetivou. As conseqüências de semelhante concepção não deságuam, entretanto, em uma postura fatalista; ao contrário, em todas as páginas de O Único encontramos sentenças que indicam uma atitude aberta e positiva diante das contingências específicas de cada contexto de autocriação, de contextos cujo esboço é oferecido na seção Minhas Relações. Uma vez que só podemos nos referir as nossas forças quando elas entram em ação, nada estaria absolutamente determinado; tudo está por fazer para o Único.
Mesmo os estados de espírito, traços de caráter e inclinações estão sujeitos às contingências; este é o inesgotável processo de fruição do Único. Um processo que, como observamos acima, tem na noção de Gozo o seu sentido. A partir da compreensão de que nossas relações com o mundo são antes de tudo relações de atrito e resistência, de negociação e acordo, concluímos que nada do que fazemos tem outro sentido senão o gozo, a autoafirmação, este é o motivo, mesmo velado, de todas as nossas ações. “Vencer ou sucumbir – entre essas duas possibilidades oscila o desfecho da luta”. Gozo seria, portanto, assim como Único, uma nova expressão tautológica ou uma metáfora branca como diria J. Bragança de Miranda. Essa é a descrição que Stirner oferece de nossa identidade, uma descrição que coloca em cheque determinados aspectos comuns à maioria das descrições da subjetividade humana oriundas da filosofia moderna.
Com razão, Ferrucio Andolfi expressou a sua insatisfação com semelhante retrato de nossa vida. Segundo ele, o caráter positivo da individualidade bem como a idéia de uma norma individual de desenvolvimento “não vem desenvolvidos de forma conseqüente. Falta a Stirner o sentido de uma permanência do sujeito, de uma identidade adquirida através de uma história”. Segundo o crítico, a problematicidade desse aspecto da filosofia stirneriana consistiria em que ele, entre outras coisas, contrariaria a intuição comum de que possuímos uma identidade, desenvolvida no decorrer de nossa história. É inteiramente legítima, penso, a alegação de Andolfi. Contudo, a mesma deixa de levar em consideração que a filosofia stirneriana aparentemente possui como um dos traços principais, como observamos acima, o fato de ser oferecida como um contraponto das pressuposições metafísicas e ontologizantes acerca da vida dos indivíduos, constituindo-se como tentativa de dessacralização destas. Sendo assim, a descrição de nossa identidade desenvolvida no decorrer do livro O Único e sua Propriedade deve ser compreendida em sentido “deflacionário”, como oferecendo um contra movimento em relação ao essencialismo moderno; radical em direção à particularidade e a finitude. Por isso a descrição da individualidade oferecida por Stirner deve ser compreendida como uma tentativa de dar poder aos indivíduos concretos para que estes possam afirmar-se contra o domínio do “espírito”.

*

 

O arranjo geral do pensamento stirneriano, sob o ponto de vista aqui desenvolvido, visa à deflação e secularização definitiva da Modernidade. É com esse propósito que as peças são distribuídas no tabuleiro do Único, entre elas a elegia do crime visando promover o escândalo do puritanismo moral, a colocação do egoísmo como categoria central em oposição às pretensões de impessoalidade da filosofia clássica e finalmente o desenvolvimento de uma concepção da individualidade que atribui ao corpo, pulsivo e subjetivo, uma importância crucial.
A concepção de identidade (ou a indicação da indesejabilidade de desenvolvimento teórico acerca de algo dessa natureza) oferecida por Stirner demarca um limite para as atividades universalizantes em relação aos indivíduos concretos, no sentido de mantê-los a salvo das fantasmagorias da modernidade. O mundo é o adversário contra o qual o indivíduo se opõe através das elaborações lingüísticas ou pensamentos, assim como através de atitudes e ações; pedir que ele se submeta a uma definição seria como sugerir que ele aponte uma arma contra o próprio peito, seria expô-lo ao risco de uma nova divisão entre o que ele é e o que ele aparenta ser: uma recaída no universo atormentado do “religioso”. Retornaremos ainda a esse aspecto da análise da relação entre O Único e as posições stirnerianas acerca da linguagem. Talvez seja uma perda teórica, a impossibilidade de traduzir a intuição de continuidade através do tempo da qual fala Andolfi, mas é um ganho do ponto de vista do tipo da cultura que Stirner deseja promover. Ademais, presumo que Stirner consideraria essa intuição de uma identidade adquirida através do tempo apenas mais uma obsessão produzida pela educação cristã.

 

 

 

 

(Visited 44 times, 1 visits today)