A MINHA OBJETIDADE

EGOALTER

A defesa de Sartre ante o obstáculo que se apresenta como uma nova dúvida diante do solipsismo consiste em explicitar a objetidade da consciência. Isso é experimentar-se como objeto diante do Outro: é ser-Para-outro.

Então, o nosso ser-objeto é totalmente diferente de ser-para-mim. Esse último diz relação com o Ich bin Ich, de Hegel. Porém, não se trata de uma identificação formal, porque se reduz ao ser-Para-si, enquanto se refere a si mesmo.
A minha objetidade não é uma afirmação de mim mesmo, mas todo o contrário, pois exige uma negação explícita. Para que a própria consciência seja objeto é necessário que não se capte a si mesma como sendo objeto. De fato, “o objeto é aquilo que minha consciência não é” (SN, p. 351). O que realmente se percebe é que o Outro está me enxergando como um objeto, embora eu não possa saber de que modo isso se pode verificar na consciência dele. Por isso, a objetidade tem a ver com a dimensão de ser-Para-outro da consciência.
Não se trata, por conseguinte, de uma ação consciente enquanto ser-Para-si, aquilo que é o que não é e não é o que é. A minha consciência é o meu Nada radical, aquela abertura ou relacionalidade que me permite experimentar tudo o que está no meu mundo. Ser consciente de mim mesmo, como objeto, significa que o fenômeno que se apresenta é uma “consciência degradada”, da qual Sartre assim se expressa:

A objetivação é uma metamorfose radical e, ainda que eu pudesse me ver clara e distintamente como objeto, iria ver, não a representação adequada do que sou em mim e para mim mesmo (…), mas a captação de meu ser-fora-de-mim pelo outro, ou seja, a captação objetiva de meu outro-ser, radicalmente diferente de meu ser-para-mim e que não se refere a este. (SN, p. 351)

Isso quer dizer que nem na dimensão do ser-Para-mim consigo ter acesso ao meu eu como objeto em si. Para conseguir isso seria necessário sair de mim mesmo e me observar desde fora, o que é claramente impossível. A minha objetidade é ser-Para-outro. Por outro lado, ser-para-mim é captar-me como ser-Em-si. A teoria sartreana pretende vencer o solipsismo através de uma filosofia da negação e não da afirmação dialética de si mesmo, ao estilo de Hegel. Por exemplo, se me capto como malvado, trata-se de um tipo de manifestação de “ser-para-mim”. Experimento-me assim porque outros me julgam dessa forma, “pois não sou nem posso ser malvado para mim mesmo” (SN, p. 351). De fato, seria contraditório assumir-me como amante do mal, porque toda consciência busca estar bem. Eu posso saber que outros me consideram malvado e que são capazes de me enviar preso, mas não posso viver essa qualidade de “ser malvado”, “ciumento” ou “antipático” enquanto realidades minhas. A respeito dessas qualidades, diz o autor: “se o outro as atribui a mim, são admitidas pelo que sou para mim, mas, quando o outro faz uma descrição do meu caráter, não me “reconheço”, e, contudo, sei que “sou eu”.” (SN, p. 352).
Concluindo, a minha objetividade não é autopercepção objetiva, mas uma experiência puramente relacional com o Outro que me converte em objeto pelo seu Olhar. Sartre define essa ação como uma “queda através do vazio absoluto em direção à objetividade” (SN, p. 352). Tal queda é a alienação da minha consciência, o meu ser-Para-outro. Em nenhum caso posso alienar-me de mim mesmo, por isso não posso fazer-me objeto para mim.

 

 

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