ALIENAÇÃO

INDIVIDUALIDADE

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No interior do pensamento stirneriano, a apreciação do fenômeno da alienação está diretamente ligado àquela do desenvolvimento da individualidade, que Stirner aborda analisando as fases da infância, adolescência e idade adulta.

Segundo ele, desde o nascimento o indivíduo luta com o mundo, no qual é lançado como um dado entre tantos, buscando encontrar e afirmar a si próprio, pois “tudo com o qual a criança entra em contato se opõe às suas intervenções, afirmando sua própria existência”.

A criança observa e experimenta as coisas visando desvelar o que nelas está encoberto, a fim de desvendar seu fundamento. Teme e respeita o que lhe é exterior até descobrir em si forças capazes de superá-lo. Assim, “/…/ por detrás de tudo encontramos nossa ataraxia, isto é, nossa intrepidez, nossa resistência, nossa supremacia, nossa invencibilidade. Nós não recuamos mais timidamente diante o que, outrora, Nos provocava temor e respeito, mas tomamos coragem. /…/.

E quanto mais Nos sentimos Nós mesmos, tanto menor se mostra o que antes parecia invencível. E o que é Nossa astúcia, Nossa inteligência, Nossa coragem, Nossa obstinação? Que mais, senão Espírito!”.

O mundo objetivo já não exerce nenhum domínio sobre o indivíduo, pois “Nada mais se impõe, agora, ao frescor do sentimento de Nossa juventude, este sentimento de si: declaramos o mundo desacreditado porque Nós estamos acima dele, somos Espírito”.

Descobrindo seu espírito, o jovem adota um comportamento teórico. Porém, não se confrontando mais com as coisas, passa a se defrontar com os imperativos de sua consciência. Ocupando-se tão somente de seus pensamentos, interessando-se pelo mundo somente quando vê nele a manifestação do espírito, sacrifica sua vida visando realizar seus ideais. Buscando desenvolver e enriquecer seu espírito, o jovem reconhece que “embora Eu seja espírito, não sou, contudo, espírito completo e devo primeiramente procurar o espírito perfeito”. Mas, com isso, “Eu, que tinha acabado de Me encontrar como espírito, perco-me novamente, humilhando-me diante o espírito perfeito como diante algo que não me é próprio, mas que está além de mim , sentindo, com isso, meu vazio”.

Diferentemente do jovem, o adulto “afeiçoa-se a si como pessoa e encontra prazer em si mesmo como homem corpóreo e vivo”, adquirindo “um interesse pessoal ou egoísta, isto é, um interesse não somente por nosso espírito, mas pela satisfação total do indivíduo”. Repelindo o espírito da mesma forma que o jovem repelia o mundo, usando as coisas e os pensamentos segundo seu prazer, o homem egoísta põe adiante de tudo seu interesse pessoal. De modo que “o homem evidencia uma segunda descoberta de si. /…/ O homem se descobre como espírito corpóreo”. Assim, “Da mesma forma que Eu Me descubro por 4 detrás das coisas como espírito, Eu devo Me descobrir, mais tarde também, por detrás dos pensamentos, como seu criador e proprietário.

No tempo dos espíritos, os pensamentos cresciam sobre minha cabeça, da qual, no entanto, nasceram; eles pairavam como alucinações febris e Me envolviam com uma força terrível. Os pensamentos, por si mesmos, tornaram-se corpóreos, eram fantasmas como Deus, o Imperador, o Papa, a Pátria, etc. Mas se destruo sua corporeidade, Eu a reintegro à Minha e digo: somente Eu sou corpóreo. E então Eu tomo o mundo como ele é, como o que ele é para Mim, como o Meu, como Minha propriedade: Eu relaciono tudo a Mim”.

Enfim, “A criança, perturbada pelas coisas deste mundo, era realista até que, pouco a pouco, atinge o que há por detrás das coisas; o jovem, entusiasmado pelos pensamentos, era idealista, até progredir em direção ao homem, ao egoísta que se comporta à vontade com as coisas e com os pensamentos e põe acima de tudo seu interesse pessoal”.

As etapas da vida são, portanto, caminhos percorridos pelo indivíduo em direção a si próprio. As fases de seu desenvolvimento são delimitadas a partir do autoconhecimento oriundo das relações da consciência, seja com o que lhe é exterior, quando a consciência percebe-se como tal, seja consigo própria, possibilitando ao indivíduo apossar-se da consciência de si, atingindo a culminância de seu ser. Delineia-se, assim, a determinação fundamental da individualidade stirneriana, que vem a ser o autocentramento na consciência de si.

Transpondo este processo para o curso histórico, Stirner mantém o mesmo procedimento analítico, dando conteúdo ao que referiu nas fases do desenvolvimento individual ao analisar os Antigos e os Modernos.

A antigüidade, período demarcado até o advento do cristianismo, representa a infância, a fase realista da humanidade. Para os antigos, a verdade lhes era evidente através das manifestações do mundo objetivo. Conseqüentemente, eram dominados por ele, submetidos a uma ordem inalterada, vivendo na certeza de que o mundo e as relações por ele impostas – os laços familiares e comunitários, por exemplo -, eram os princípios incontestáveis ante os quais deviam se curvar. Esta sujeição perdurou até que os sofistas proclamaram o entendimento como uma arma que o homem dispõe contra o mundo.

Porém, como o entendimento sofista permanecia sujeito ao mundo, pois “o espírito era para eles apenas um meio”, Sócrates, apontando para a negação de seu caráter prático, indica a necessidade de o entendimento não sucumbir aos apelos do mundo. A partir dessa indicação socrática, buscando encontrar o prazer de viver, estóicos e epicuristas consideravam que a sabedoria da vida consistia no desprezo do mundo, numa vida sem desenvolvimento, sem extensão, enfim, numa vida isolada.

A ruptura definitiva se dá com os céticos, para os quais “toda relação com o mundo é privada de valor e verdade”, restando em relação a ele “somente a ataraxia (a impassibilidade) e a afasia (o mutismo – ou, com outras palavras, o isolamento da interioridade)”. Com a indiferença cética “a antigüidade acaba com o mundo das coisas, com a ordem e a totalidade do mundo”.

É necessário precisar com clareza o que refere Stirner ao afirmar que a antigüidade acabou com o mundo das coisas. Segundo ele, “Quão pouco o homem consegue dominar! Ele deve permitir o sol traçar seu curso, o mar impelir suas ondas, as montanhas elevarem-se em direção ao céu. Assim, sem poderes contra o invencível, como poderia precaver-se da impressão de que era impotente em relação a essa colossal prisão que é o mundo? O homem deve se submeter ao mundo, a esta lei fixa que determina seu destino. Ora, para que trabalhou a humanidade pré-cristã? Para livrar-se da opressão do destino, para não se deixar alterar por ele”.

Porém, esta superação significa tão-somente a desconsideração das determinações objetivas do mundo uma vez que, para Stirner, “a história antiga acabou desde que o Eu conquistou o mundo como sua propriedade. /…/ Ele deixou de ser superior a mim, deixou de ser inacessível, sagrado, divino, etc., ele foi ‘desdivinizado’ (entgöttert) e Eu posso, então, manipulá-lo segundo meu agrado, porque poderia exercer sobre ele, se quisesse, toda minha força prodigiosa, ou seja, a força do espírito, e com ela remover montanhas, ordenar que as amoreiras por si mesmas se desenraizassem e se deslocassem para o mar (Lucas, 17,6) e tudo que é possível, ou seja, concebível fazer /…/.

Eu sou o senhor do mundo, a Mim pertence a ‘soberania’. O mundo tornou-se prosaico porque o divino dissipou-se dele: ele é minha propriedade, que Eu disponho e domino como Me convém – quer dizer, como convém ao espírito”.

Portanto, a impressão de estar submetido ao mundo se devia à impossibilidade de dominá-lo, de superar a ordem natural. Contudo, se não podiam objetivamente, os homens tornaram-se capazes de fazê-lo por meio da subjetividade. Ao determinismo inescapável da natureza contrapõe-se, agora, a liberdade absoluta do espírito; a descoberta do espírito corresponde, pois, à descoberta da liberdade.

A impugnação da objetividade como algo dotado de verdade dá início à modernidade, identificada por Stirner ao cristianismo. Embora os antigos tenham descoberto o espírito, não puderam ir além disto; a tarefa de realizá-lo coube aos modernos. A modernidade se caracteriza por um processo de independentização do espírito em relação ao concreto, ou seja, pelo esforço para transcender toda e qualquer determinação sensível, pois para que o espírito seja efetivamente espírito, ele nada pode ter a ver com a matéria. Todavia, como o espírito “para se tornar independente se afasta do mundo sem poder aniquilá-lo realmente, o mundo permanece irremovível”e ao espírito liberto do mundo impõe-se, portanto, a necessidade ineliminável de tornar-se espírito livre no mundo. Os modernos tornaram isto possível transfigurando o mundo, transformando-o em mundo do espírito. O espírito se converte assim no princípio que engendra e se manifesta nas coisas, que as faz ser o que são, que as vivifica, enfim, no que há de verdadeiro nelas.

 Esta transfiguração não se limita ao âmbito das coisas, pois o cristianismo, tendo “como fim específico Nos libertar da determinação natural (a determinação pela natureza), /…/ queria que o homem não se deixasse determinar por seus desejos.

De sorte que “o espírito torna-se a força exclusiva e não se ouve mais nenhum discurso ‘da carne’”. Considerando seu espírito como o que há de verdadeiro em si, os homens, porque não se resumem absolutamente ao espírito, julgam-se menos que espírito e este se revela, assim, algo distinto da individualidade. O espírito torna-se o ideal, o inatingível, o além; torna-se Deus, o espírito puro que existe fora do homem e do mundo humano.

Obcecados, os indivíduos passam a ver fantasmas por todos os cantos, pois o mundo se transforma em simples aparência, objeto de manifestação do espírito que habita as coisas. Possuídos pela convicção de que há um ser supremo do qual tudo emana, obstinam-se à tarefa de determinar seu fundamento, compreender e descobrir sua realidade, buscando “transformar o espectro em não-espectro, o irreal em real”, de modo a conferir existência ao imaterial. Disso decorre que “O que outrora valia como existência, como mundo, etc., mostra-se agora como simples aparência e o verdadeiramente existente é o ser /…/. Agora, somente este mundo invertido, o mundo do ser”, existe verdadeiramente.

Reconhecendo o espírito como superior e mais poderoso, os indivíduos são forçados a cultivar apenas interesses ideais, pois “quem quer que viva por uma grande idéia, uma boa causa, uma doutrina, um sistema, uma alta missão, não deve deixar nascer em si os apetites do mundo, os interesses egoístas”, isto é, os interesses concretos, sensíveis, pois não devem se deixar levar por qualquer determinação de caráter material.

Princípios, noções e valores, que reconhecendo expressamente a existência de um ser supremo fundamentam a crença e o respeito em relação a ele, passam a dominar os indivíduos como idéias fixas que orientam todas as suas ações e relações, engendrando e estimulando a negação e o desinteresse de si. Os dogmas religiosos, os princípios filosóficos, morais e políticos constituem para Stirner exemplos destas idéias fixas, que têm como meta zelar pelo espírito e moldar os indivíduos de acordo com seus imperativos.

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