PROPRIEDADE §

NEGAÇÃO SU

 

 

 

 

 

 

Para Stirner, o indivíduo não pode ser senão forte; e a liberdade radical deste consiste nesta fortaleza que lhe permite não se submeter a alguma coisa que, pelo momento, é mais poderosa que ele: “é renegar da minha individualidade abandonar-me eu mesmo a outro, ceder, renunciar por submissão ou resignação”.

 

O indivíduo enquanto tal nunca se dobra, no máximo deixa de lado um mau caminho, mas isto, indubitavelmente, é diferente de submeter-se.

 

O indivíduo rodeará a rocha que fecha o caminho até que tenha pólvora suficiente para destruí-la. Quer dizer, esta liberdade radical do indivíduo expressa-se nesta disposição a nunca se curvar e a nunca se dar por vencido frente às coisas que quer possuir, porque isto significaria renunciar já não à propriedade, mas sim à condição mesma de ser sujeito de apropriação. Não existe nada, num sentido radical, intocável. Stirner escreve: “Se não posso pegar a lua, deve por isto ser-me sagrada, ser para mim uma Astarte? Se eu pudesse tão somente te pegar, não vacilaria, certamente, e se eu encontra-se um meio de chegar a ti, não me darias medo! És a inacessível; mas somente até o momento em que eu tenha conquistado o poder necessário para te pegar, e este dia tu serás minha; eu não me curvo ante ti; espera que tenha chegado minha hora!”.

 

 

Não é suficiente, então, que a vontade queira, deve poder, ainda mais, o que em primeiro lugar a vontade quer é, precisamente poder, a vontade é vontade de poder. A vontade de poder é vontade de senhorio e domínio, é a vontade do proprietário que pode fazer o que quer com as suas propriedades, quer dizer, é livre. A vontade que pode é vontade livre.

 

Porém, é bom perguntarmos a respeito daquela liberdade que é concedida, que nos é dada. Se, como víamos, o indivíduo é livre na medida do seu poder, como entender, então, a liberdade de um prisioneiro que é libertado? Se a minha existência se reduz ao meu eu que se expande, que é poderoso, que é em si vontade de poder, e se minha liberdade só existe enquanto existe meu poder, como entender uma liberdade que é concedida e não conquistada? Pode ser considerada efetiva liberdade? Se seguirmos o pensamento de Stirner exposto até aqui, a resposta a este problema é obvia. O indivíduo colocado na situação antes descrita é menos que qualquer outro, inclusive menos que um prisioneiro, já que o prisioneiro pode ainda fazer efetivo o seupoder, pode ainda se libertar. Stirner distingue assim os conceitos de autolibertação e de emancipação.

 

 

O autoliberado é aquele que tem conseguido sua liberdade através de seu próprio poder, de um poder que é da sua propriedade, dono do poder, dono de si mesmo, por tanto, indivíduo.

 

Contrariamente, o emancipado é aquele a quem a liberdade tem sido concedida. “… aquele que não se liberta a si mesmo, não é mais que um emancipado…”.20 Se eu tenho sido libertado, isto quer dizer que não tive o poder suficiente para libertar-me, portanto, como liberdade é poder,  se não tenho poder não tenho liberdade; só posso ser livre na medida em que o poder radica em mim, e a conquista da liberdade significa precisamente o exercício desse poder. Somente existe a liberdade que se conquista.

 

A expressão vontade de poder remete sem dúvida a Nietzsche, mas apesar das semelhanças, Stirner não usa este conceito exatamente no mesmo sentido que Nietzsche.

Concordam em que a vontade de poder é fundamento da liberdade. E todos enquanto indivíduos somos livres num sentido radical, pois em todo indivíduo encontramos, em palavras de

Nietzsche, vontade de poder: “Onde eu encontrei um ser vivo encontrei vontade de poder: e inclusive na vontade do servo encontrei a vontade de ser senhor”.

 

Para Stirner, por outra parte, os meios pelos quais eu concretize minha vontade de poder, quaisquer que estes sejam, somente têm como condição para serem aceitos, sua efetividade. Quer dizer, não existe, em Stirner, outra medida para a atuação do indivíduo, que o próprio proveito ou conveniência. Dessa forma, toda moral, toda norma e legalidade desaparecem ante minha vontade de poder. O valor radical é, então, o egoísmo, a única coisa que vale sou eu. A este respeito Stirner diz: “Eu asseguro minha liberdade contra o mundo, em razão de que eu me aproprio do mundo, qualquer que seja, por outra parte, o meio que eu use para conquistá-lo e fazê-lo meu: persuasão, súplica, ordem categórica ou ainda hipocrisia, engano, etc.”.

 

Nietzsche, contrariamente, ainda reconhecendo que a mesma vida é vontade de poder, não chega ao extremo de Stirner nas conclusões que se poderiam tirar deste princípio. ParaNietzsche os valores que os homens aceitam são decadentes e, de alguma maneira, são os culpados de levar à civilização ao niilismo. A moral de seu tempo é a moral do fraco, quer dizer, está fundada numa privação, numa niilidade, numa negação da autêntica identidade do homem, e, portanto, deve ser superada.

 

Nietzsche não atenta contra a moral mesma, mas sim contra a estrutura de valores da moral que tem regido e rege o homem até sua época. Nietzsche acredita na transmutação dos valores. Para Nietzsche existem valores além do Eu. Exemplificando: “Minha prática bélica pode resumir-se em quatro princípios. Primeiro: eu somente ataco coisas que triunfam… Segundo: eu somente ataco coisas quando eu não encontro aliados, quando estou sozinho… Terceiro: eu nunca ataco pessoas… Quarto: eu somente ataco coisas quando está excluída qualquer disputa pessoal…”.

 

 

Como se pode observar, Nietzsche reconhece normas e valores orientadores da ação,neste caso, da prática bélica. Para Stirner, contrariamente, toda norma, enquanto está por cima do indivíduo, significa uma opressão e, neste sentido, Stirner não pode senão rejeitar a moral mesma.

Porém, é necessário precisar que o pensamento de Nietzsche da transmutação dos valores tem como fundamento a vontade de poder, no sentido de que estes novos valores fomentariam a fortaleza e acrescentariam a vontade de poder, seriam, em definitivo, os valores do Super-homem, porém, ainda valores. Desta maneira, ainda que seja verdadeiro que Nietzsche afirma a vontade de poder desde valores, e Stirner não coincide com este no fim, quer dizer, ambos determinam a vontade de poder como centro de todo acionar autenticamente humano.

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