EM TORNO DO CONCEITO DE SOLIPSISMO:ABORDAGEM METAFÍSICA

IL SOLIPSISMO

 

 

 

 

 

O solipsismo metafísico, que muito se assemelha ao solipsismo de um modo geral, se caracteriza por apresentar na individualidade do eu, uma abordagem que nega a existência real de todas as coisas do mundo exterior, por ter a possibilidade de se apresentarem enquanto enganadoras ou falsas, deixando o eu reduzido à própria existência da consciência.

Uma das características de tentativa de saída do solipsismo metafísico é provar, através dessa negaçãodo mundo externo, a existência de um ser divino capaz de garantir a existência da própria consciência e seus conteúdos.

Um dos exemplos que podemos perceber onde se manifesta o solipsismo metafísico é encontrado, em uma leitura mais atenta, na obra Solilóquios de Santo Agostinho, cujoobjetivo do filósofo era a busca do conhecimento de Deus e a sua intimidade.

De modo geral a obra “Solilóquios” apresenta Agostinho em diálogo consigo mesmo, ou, em outras palavras, o filósofo em constante comunicação com sua razão como se a mesma fosse outra pessoa, um alter ego. Um “homem exterior” em diálogo com o “homem interior” de si mesmo em um constante aprendizado em busca da verdade e conhecimento de si. O filósofo, em meio ao diálogo, fala da importância do método de perguntas e respostas, pois, para ele, “não há melhor método pelo qual a verdade possa ser investigada do que perguntando e respondendo” (AGOSTINHO, 1998, p. 73).

Agostinho tem por desejo o conhecimento de Deus e sua alma. Para isso, no diálogo com sua razão, esta prossegue lhe perguntando se Agostinho ama alguma coisa além do que o conhecimento de Deus. Algumas perguntas acerca do conhecimento das coisas exteriores até mesmo de algumas paixões corpóreas (esposa, alimentos…)são postos a especulações, para ver se Agostinho está com seu coração voltado para as coisas exteriores.

O importante para se conhecer Deus, segundo o diálogo, é a recusa ou negação das paixões e do prazer das coisas exteriores. A tese geral que está por trás disso é que, cada vez que o ser humano se desapega dessas coisas mundanas e efêmeras, mais próximo do conhecimento de Deus ele se aproxima. Ademais, a verdade não se manifesta nas coisas exteriores, mas antes, nos sentidos de quem as percebe. Portanto, a verdade provinda dos sentidos das coisas exteriores é por demais incerta, pois alguma coisa possa parecer para alguém como algo verdadeiro e para outra pessoa algo falso (Cf. AGOSTINHO, 1988, pp. 62- 70).

Ainda que falsidade e verdade se confundam quando estão direcionadas para a exterioridade através dos sentidos, há a possibilidade do homem racional não se enganar, uma vez que, para se enganar, é preciso existir, ser antes de tudo. Assim afirma Agostinho:

 

R. Por isso, a falsidade não está nas coisas, mas no sentido, pois não se engana aquele que não assente às coisas falsas. Conclui-se que uma coisa somos nós, outra coisa o sentido, pois, quando ele se engana, nós podemos não nos enganar.

R. Entretanto, não há sentidos sem a alma; não há falsidade sem os sentidos. Ou é a alma que age, ou ela coopera com a falsidade (1998, p. 61).

 

Mas existe algum lugar onde se encontram a alma e Deus? Para Agostinho é na interioridade, no próprio sujeito8. Para descobrir isso, teve que direcionar sua investigação não para a exterioridade, mas antes, para sua intimidade. E é nela aonde se manifestam a alma e Deus.

Ainda que a forma do diálogo de Agostinho desemboque em algo semelhante ao solipsismo, a tentativa de saída do solus ipse (embora o filósofo não apresente tal tese) é procurar nessa interioridade algo além dela mesma, algo que a transcenda, semelhante ao próprio Deus.

Nodari procura apresentar e desenvolver em seu trabalho, que a obra Solilóquios está longe de ser um texto solipsista, tendo em vista, a descoberta de Deus na interioridade de sua alma.

 

O objetivo desta reflexão é provar que o texto de Agostinho intitulado de Solilóquios, longe de ser, como poderia parecer numa primeira leitura desatenta do próprio título, uma obra de teor solipsista, ele se constitui num texto, cuja finalidade, para Agostinho, na busca do mais íntimo de si, não é outra senão encontrar o próprio Deus (NODARI, 2011, p. 153).

 

O objetivo deste trabalho não é apresentar as provas que Agostinho dá acerca existência de Deus. Contudo, é necessário constatarmos que nos Solilóquios a razão é um fator indispensável para conseguimos chegar à verdade9 das coisas inerentes a atividade do espírito. A partir dessa verdade dada pelo conhecimento, a própria razão se pergunta se não existe algo superior a ela mesma, pois se depara com algo superior.

 

O que alcançamos ao alcançar as verdades é um conteúdo da nossa própria razão que não pode ser explicado do ponto de vista dela e que nos obriga, por conseqüência, a transcendê-la para afirmar a existência da luz que a esclarece: a verdade substancial, eterna e imutável que é Deus (GILSON, 2006, p. 44).

 

Com o argumento tentando evidenciar Deus presente na intimidade da subjetividade, parece-nos que Agostinho tenta transcender ao próprio domínio da razão e, com isso, sair do solipsismo que o constitui no diálogo consigo mesmo na obra Solilóquios. A saída do solipsismo mais se caracteriza por não permanecer preso às artimanhas vazias do subjetivo, mas de encontrar nas profundezas da intimidade algo superior, Deus, esse outro que está presente na alma da qual faz parte, como um sol que ilumina e torna todas as coisas iluminadas.

 

 

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