A DESSACRALIZAÇÃO DA IDENTIDADE II

DESSACRALIZAÇÃO

 

 

 

 

 

 

 

 

Todavia, conquanto o método dialético pareça permitir a supressão dessa dicotomia do ponto de vista teórico, outra lhe subjaz: a separação entre ato e potência. A individualidade teria nessa separação o papel de mediador na transição de um ao outro durante o processo de realização da razão.

É nesse sentido que Marcuse afirma que “a dialética de Hegel esta imbuída da convicção profunda de que todas as formas imediatas da existência – naturais ou históricas- são más, pois não permitem que as coisas sejam o que podem ser”. Apenas no Estado, tal qual ele o concebe, a tensão entre ato e potência cessaria, pois aí se teria a plena correspondência entre um e outro.

 

por ser o Estado o Espírito Objetivo (ultimo desdobramento do Espírito), o indivíduo ele mesmo não pode ter verdade, existência objetiva, e vida ética senão enquanto membro do Estado. A união enquanto tal é, ela mesma, o verdadeiro conteúdo e o verdadeiro fim, pois os indivíduos tem por destino levar uma vida universal (…) O Estado é a realidade efetiva da liberdade concreta (HEGELp.111).

 

Stirner não detém, dentro do movimento jovem hegeliano, o privilégio da crítica à canonização de uma dada perspectiva ética na figura do Estado. Todavia, sua maneira de opor-se a dicotomia entre ato e potência – que ainda iremos abordar mais minuciosamente – bem como a sua crítica das hipóstases do pensamento moderno, conduzem a conseqüências ímpares no debate jovem-hegeliano. Stirner também rejeita a correspondência hegeliana entre a efetivação das possibilidades da razão e a autorealização individual.

Para o filósofo, com essa identificação “o que se pretende nãoé a liberdade de movimentos e o valor autônomo da pessoa, do meu eu, mas da razão, o que vem a dar num domínio da razão, na pura dominação”. Ou seja, a sujeição ao Estado, último desdobramento da razão, a mais elevada forma de liberdade prescrita pelo sistema hegeliano, seria ao mesmo tempo uma sujeição a um conceito, ou “espectro”. Por outro lado, para Stirner, não é em nome de uma outra concepção de liberdade, como fazem os outros jovem-hegelianos, que iremos alcançar a nossa autorealização.

 

“A liberdade não me dá nada”, a liberdade depende “do modo como eu me sirvo dela” e o empenho pela liberdade nada mais é do que o resultado de um “ponto de vista cristão”. Acompanharemos mais adiante o ataque lançado por Stirner em direção àqueles que criticam Hegel, não por sua veneração à razão, mas pelo caráter supostamente “conservador” ou “abstrato” de sua concepção de liberdade.

 

Esquivando-se de tomar o problema da Suprassunção das dicotomias que caracterizam a Modernidade do modo como ele se apresenta para Hegel, o filósofo traduz em outros termos os seus aspectos problemáticos. Stirner opta por condenar a própria afirmação de que existe uma dicotomia entre o real e o ideal (ou uma alienação resultante dessas dicotomias), que deveria ser ultrapassada, bem como um Telos imanente à ação humana, que não esteja apenas nas cabeças dos padres, pastores e filósofos. No sentido de opor-se a essa mania ele propõe, de um modo inovador na história da filosofia, uma mudança radical acerca de nossa auto-imagem, a sua dessacralização, além da própria diluição do real e do ideal na noção de Propriedade (Eigentum).

 

Mais à frente analisaremos alguns aspectos da mudança de nossa identidade oferecida em O Único. Com relação ao segundo aspecto da proposta stirneriana acima citada, o mesmo desenvolve-se a partir da observação de que a realidade nunca é apenas simplesmente dada, pois todo conjunto de circunstâncias implica a referência aos desejos e interesses de quem o vivencia. Cada indivíduo é o centro de seu mundo, e o mundo resume-se apenas àquilo que é para ele. As circunstâncias, ou os contextos, são a Propriedade de um determinado indivíduo. Esta, para Stirner, é tudo aquilo com que o indivíduo entra em relação. Único e Propriedade são termos reciprocamente referidos.

Tudo que cerca o indivíduo e entra numa relação absolutamente singular com ele, torna-se sua Propriedade. Através do estabelecimento destas relações, do reconhecimento da referência de todo não-eu ao Ser-Próprio (Eigenheit) o indivíduo torna-se, ou se reconhece, Único. A relação entre ambos se dá com base na busca de auto-afirmação, o que do ponto de vista do indivíduo pode ser compreendido como Gozo de Si (Selbstgenuß). Logo, já não existe um real que não esteja submetido à relação absolutamente singular que o indivíduo estabelece e impõe ao mundo, assim como o ideal passa a ser visto apenas como um pensamento que se tornou fixo, no momento em que dele nos tornamos escravos; em que o tratamos como algo Sagrado (Heilig).

Esse é um dos principais argumentos que constituem a defesa do “egoísmo” em O Único. Se todo pensamento tem na minha satisfação o seu sentido, devemos então compreender as idéias que se pretendem impessoais e desinteressadas como produtos que se emanciparam de sua razão de ser, no esquecimento de mim mesmo enquanto sua fonte.

O retorno a mim, a auto-conciliação, (a única possível) é aqui atingida tão logo eu suprimo a Idéia Fixa que me levava a acreditar que a minha separação em relação ao mundo deve ser superada, e me contento em tentar “levar vantagem” nessa separação. Assim afirmo a precedência do SER-PRÓPRIO (Eigenheit) sobre toda sacralização do objeto.

Tal reassimilação se dá com base no reconhecimento da minha fruição (Genuß), como sentido da produção de todo pensamento, do estabelecimento de toda relação.

O problema da alienação (Entfremdung), central à filosofia hegeliana, encontrase representado aqui pela indicação de uma mania, que leva algumas pessoas a esquecerem-se de si mesmas em seus ideais. Não seria exatamente, portanto, uma alienação no sentido de uma mudança de natureza “ontológica”, uma vez que a mudança processa-se no modo através do quais eu estabeleço as minhas relações. Eu continuo egoísta, embora involuntário, quando lido com minha propriedade como se ela possuísse algum tipo de auto-subsistência, quando aceito a minha impotência frente ao mundo como um indicativo de valor. O egoísta involuntário é aquele que “se coloca sempre em primeiro lugar sem, no entanto, se considerar o ser supremo, só serve a si próprio e ao mesmo tempo pensa servir a um ser superior”Não se tratando, portanto da alegação de uma inequívoca alienação do sujeito frente ao objeto, como em Hegel, tal argumento visa conduzir ao questionamento acerca do tipo de relação que o eu estabelece com o não-eu, conforme observou Giorgio Penzo. Para este, a questão da relação é “central ao filosofar stirneriano”, e é no contexto desta questão que a auto-realização é descrita como a auto-afirmação “do sujeito frente ao objeto.”

Contudo, julgo de capital importância uma observação acerca do que se poderia considerar o caráter ambíguo da noção de propriedade em Stirner. Algumas vezes tal noção parece apontar para uma espécie de nominalismo não-gnosiológico, para o qual toda realidade é realidade justamente porque é constituída por predicados “meus” que a tornam minha propriedade. Nessa leitura a propriedade seria o resultado da afirmação dos meus predicados em relação aos objetos que de um modo ou de outro entram em relação comigo.

 

Todos os predicados dos objetos são afirmações minhas, juízos meus, criaturas minhas. Se elas se quiserem libertar de mim e ganhar autonomia, ou mesmo impor-se, o que tenho a fazer é fazê-las regressar ao seu nada, isto é, a mim, seu criador (UP, p. 264).

 

Por outro lado a propriedade também aparece no texto como um tipo específico de realidade, aquela que é posta sob o domínio e controle do Único, de modo dessacralizado. Como no caso de alguém que tem fome e cansaço e cobiça um alimento ou uma confortável cama que outro possui “Como queres tu então chegar a desfrutar daquelas iguarias e camas? Sem dúvida fazendo delas propriedade tua” Ora, nessa passagem Stirner parece reconhecer a existência de entidades “independentes” e devidamente predicadas (como não-minhas!) que ainda não se  constituíram como propriedades, uma vez que ele fala em apropriar-se das mesmas, o que colocaria em xeque a concepção anterior – e a mais recorrente no texto – levandonos a um impasse.

Uma solução de tal impasse é possível apenas, penso, mediante o retorno ao tipo de abordagem que foi frisada no início deste texto: a abordagem relacional. O movimento de apropriação que constitui o objeto enquanto propriedade visa à dissolução da sacralidade do objeto (ou do não-eu). Se esse objeto é uma palavra ou conceito tal dissolução manifesta-se como resignificação ou interpretação em função das pulsões daquele que a utiliza.

Se, por outro lado, esse não-eu é um objeto sensível que de algum modo impõe-se aos desejos e pulsões do Único, a dessacralização aparece como o ato de trazê-lo para o seu alcance , ou quando isso não é possível, a disposição de fazê-lo assim que o poder do Único seja suficiente para tanto. A diferença de significado da expressão nos dois casos indica duas diferentes áreas da cultura, ou modalidades de ação dentro desta, onde o Sagrado pode se manifestar, aquelas que a filosofia clássica convencionou diferenciar pelo nome de teoria e prática. Nos dois casos

 

Stirner sugere a afirmação do Ser-Próprio em relação ao aspecto sagrado do objeto. Iremos ainda desenvolver de modo mais minucioso a relação entre as duas expressões.

A noção de propriedade pretende tornar sem sentido a suposta necessidade de superação da dicotomia entre sujeito e objeto, dicotomia que seria para Hegel o principal problema da modernidade, para em seguida atribuir o aspecto problemático dessa mesma modernidade à crença em “espíritos” como “humanidade’, “razão”, “verdade” etc. A alegada dicotomia, contudo, é o que justifica na filosofia jovem hegeliana a necessidade de engajamento em uma dada postura ética ou teórica para através desse engajamento superá-la Precisamos, portanto, verificar quais os resultados do abandono da crença nessa dicotomia para a idéia de desenvolvimento.

 

 

 

 

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