A CONQUISTA DA INDIVIDUALIDADE

NEGAÇÃO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Segundo Stirner, desde o fim da antigüidade, a liberdade tornou-se o ideal orientador da vida, convertendo-se na doutrina do cristianismo. Significando desligar-se, desfazer-se de algo, o desejo pela liberdade, como algo digno de qualquer esforço, obrigou os indivíduos a se despojarem de si mesmos, de sua particularidade, de sua propriedade (eigenheit) individual.

Stirner não recusa a liberdade, pois é evidente que o indivíduo deva se desembaraçar do que se põe em seu caminho. Contudo, a liberdade é insuficiente, uma vez que o indivíduo não só anseia se desfazer do que não lhe apraz, mas também se apossar do que lhe dá prazer. Deseja não apenas ser livre mas sobretudo ser proprietário. Portanto, exatamente por constituir o núcleo do desejo seja pela liberdade, seja pela entrega, o indivíduo deve tomar-se por princípio e fim, libertar-se de tudo que não é si mesmo e apossar-se de sua individualidade.

Profundas são as diferenças entre liberdade e individualidade. Enquanto a liberdade exige o despojamento para que se possa alcançar algo futuro e além, a individualidade é o ser, a existência presente do indivíduo. Embora não possa ser livre de tudo, o indivíduo é ele próprio em todas as circunstâncias pois, aindaque entregue “como servo a um senhor”, pensa somente em si e em seu benefício. Com efeito, “seus golpes Me ferem: por isso, Eu não sou livre; contudo, Eu os suporto somente em meu proveito, talvez para enganá-lo através de uma paciência aparente e tranquilizá-lo, ou ainda para não contrariá-lo com Minha resistência. /…/. De modo que tornar-Me livre dele e de seu chicote é somente conseqüência de Meu egoísmo precedente”.

Logo, a liberdade – “permissão inútil para quem não sabe empregá-la”- apenas adquire valor e conteúdo em função da individualidade, a qual afasta todos os obstáculos e põe as condições de possibilidade para a liberdade.

Stirner frisa que a individualidade (Eigenheit) não é uma idéia nem tem nenhum critério de medida estranho mas encerra tudo que é próprio ao indivíduo, é “somente uma descrição do proprietário[65]. Esta individualidade, que diz respeito a cada indivíduo singular, afirma-se e se fortalece quanto mais pode manifestar o que lhe é próprio.

E exprimir-se como proprietário exige que o indivíduo não só tenha a plena consciência dessa sua especificidade mas que, principalmente, exteriorize suas capacidades para se apropriar de tudo que sua vontade determinar. O indivíduo tanto mais se realiza e se mostra como tal quanto mais propriedades for capaz de acumular, pois a propriedade que se manifesta exteriormente reflete o que se é interiormente. Para que isto se dê, o indivíduo tem de se reapropriar dos atributos que lhe foram usurpados e consagrados como atributos de Deus e, depois, do Homem.

Stirner aponta que as tentativas da modernidade para tornar o espírito presente no mundo significam que estas perseguiram incessantemente a existência, a corporeidade, a personalidade, enfim, a efetividade. Mas observa que centrada sobre Deus ou sobre o Humano, nunca se chegará à existência, dado que tanto Deus quanto o Homem não possuem dimensão concreta, mas ideal e “nenhuma idéia tem existência porque não é capaz de ter corporeidade”, atributo específico dos indivíduos. Logo, a primeira tarefa a que o indivíduo deve se lançar é recobrar sua concreticidade, perceber-se totalmente como carne e espírito, aceitando, sem remorsos, que não só seu espírito mas também seu  corpo é ávido por tudo que satisfaça suas necessidades. Conquista-se, assim, a integralidade como subjetividade corpórea. Contudo, recuperar a corporeidade não significa que o indivíduo deva se entregar a ela, deixando-se dominar pelos apetites e inclinações sensíveis, uma vez que a sensibilidade não é a totalidade de sua individualidade. Ao contrário, a conquista da individualidade requer o domínio sobre o corpo e sobre o espírito.

Apropriando-se de sua concretude, de sua existencialidade, o indivíduo deve, por conseguinte, apropriar-se de sua humanidade. Conforme Stirner, o Homem como realização universal da idéia, isto é, como corporificação da idéia, representa a culminância do processo de abstração que permeou a modernidade. Admitindo a possibilidade de a essência poder estar separada da existência, o ser separado da aparência, o indivíduo foi considerado inumano, o não-homem cuja missão é, precisamente, vir a ser homem. Assim, a humanidade assentou-se não sobre o Eu corpóreo, material, “com seus pensamentos, resoluções, paixões”, mas sobre o ser genérico Homem. De modo que o ser abstrato e indiferenciado tomou o lugar do ser real, particular, específico.

No entanto, ser humano não é a determinação essencial do indivíduo. É mesmo “insignificante que nós sejamos homens, pois isto só tem significado na medida em que é uma de nossas qualidades, isto é, nossa propriedade. Eu sou certamente, entre outras coisas, também um homem, como Eu sou, por exemplo, um ser vivo, conseqüentemente um animal, ou um europeu, um berlinense, etc.”. O humano se realiza no ser homem, que “não significa preencher o ideal o homem, mas manifestar-se como indivíduo”, ou seja, manifestar-se como é e não aquilo que é. Com isso, a questão conceitual “o que é o homem?” se transforma na questão pessoal “quem é o homem?” Enquanto com o ‘que’ procura-se o conceito a fim de realizá-lo, com o ‘quem’ tem-se uma resposta que é dada de modo pessoal por aquele que interroga: a pergunta responde-se a si mesm. Portanto, quem é o homem? É “o indivíduo, o finito, o Único”. O homem vale como universal; porém, “Eu e o egoísmo somos o verdadeiro universal, porque cada um é egoísta e se põe acima de tudo”.

A força do Eu stirneriano é a atualização de suas capacidades; através dela, o indivíduo objetiva a vontade que o move e expande sua propriedade. É o que especifica e distingue os indivíduos, que são o que são em função da quantidade de força que possuem. Todavia, no decorrer de séculos de cristianismo se perseguiu um modo de torná-los iguais enquanto ser e poder ser. Primeiramente, encontrou-se a igualdade no ser cristão que, todavia, ao excluir os não cristãos, deixava subsistir a diferença, pois só os seguidores dos preceitos divinos eram merecedores das dádivas de Deus. O poder ser se revelava, assim, um privilégio. Contra esse particularismo, lutou-se pela igualdade universal advinda da humanidade presente em cada indivíduo e, como homem, reclamou-se pelo que legitimamente, ou seja, por direito, cabe ao Homem. O direito, portanto, é uma concessão dada aos indivíduos em função de estarem subordinados a uma potência, ela sim detentora da vontade soberana. Advindo de uma fonte externa, “todo direito existente é direito estranho”.

No entanto, segundo Stirner, fora do indivíduo não existe nenhum direito, pois “Tu tens direito ao que Tu tens força para ser”. Assim, quando o indivíduo é forte o suficiente para agir segundo sua vontade, está em seu direito e o realiza. Se o ato não se coaduna à vontade de um outro, este também está no direito de não aceitar e fazer prevalecer sua vontade, caso tenha a força para tal. De modo que a ação não necessita de nenhuma autorização, pois é a efetivação da vontade do indivíduo que se cifra em si mesmo. E uma vez que a força é a medida do direito, os indivíduos tornam-se proprietários do que são capazes, capacidade que depende exclusivamente de sua força para se apoderar e de sua força para conservar a posse. Portanto, enquanto o direito “é uma obsessão concedida por um fantasma, a força sou Eu mesmo. Eu sou o poderoso e o proprietário da força. O direito está acima de Mim /…/, é uma graça concedida por um juiz; a força e o poder existem somente em Mim, o forte e o poderoso”.

Ademais, a conquista da individualidade demanda a necessidade de reorganização das relações entre os indivíduos, dado que até então os indivíduos não puderam alçar a seu pleno desenvolvimento e valor, pois “não puderam ainda fundar suas sociedades sobre si próprios” cabendo-lhes tão somente “fundar ‘sociedades’ e viver em sociedade”, não como querem, mas de acordo com interesses gerais, que visam apenas ao bem comum. Em conseqüência, o modo de existência dos indivíduos é determinado exteriormente pela forma da sociedade, através das leis e regras de convivência, de modo que estes não se relacionam diretamente, mas pela mediação da sociedade.

Os indivíduos devem tomar consciência do impulso que os leva a estabelecer um intercâmbio com os outros. Segundo Stirner, as relações interindividuais se resumem ao fato de que “Tu és para mim apenas meu alimento, mesmo se Eu também sou utilizado e consumido por Ti. Nós temos entre Nós apenas uma relação, a relação de utilidade, do pôr-se em valor e em vantagem”. De modo, que para assenhorear-se de suas relações e estabelecê-las de acordo com seus interesses, é imprescindível romper com as formas instituídas de sociedade, que têm em vista, todas, restringir a singularidade dos indivíduos. Assim, “desde que um interesse egoísta se insinue no seio da sociedade, ela estará corrompida e caminhará para a sua dissolução /…/”.

A dissolução da sociedade se dará, conforme Stirner, com a associação dos egoístas, uma “reunião continuamente fluida de todos os elementos existentes”, na medida em que se forma a partir da volição dos indivíduos que, liberta dos constrangimentos sociais, ganha livre curso. O que a caracteriza é o fato de os indivíduos se relacionarem sem contudo um limitar o outro, porque não se encontram ligados por nenhum vínculo extrínseco, ou, nos termos de Stirner, porque “nenhum laço natural ou espiritual faz a associação; ela não é nem uma união natural, nem espiritual”.

Na associação, as relações entre os indivíduos se dão sem intermediação alguma, o que os permite unirem-se aos outros exclusivamente por seus interesses pessoais. Visto que “Ninguém é, para Mim, uma pessoa respeitável, tampouco meu semelhante, mas meramente, como qualquer outro ser, um objeto pelo qual Eu tenho ou não simpatia, um objeto interessante ou não, umsujeito útil ou inútil”, “se Eu posso utilizá-lo, Eu me entendo e Me ponho de acordo com ele e, por este acordo, intensifico minha força e através dessa força comum faço mais do que isolado poderia fazer. Neste interesse comum, Eu não vejo absolutamente nada de outro senão uma multiplicação de minha força e Eu o mantenho apenas enquanto ele é a multiplicação de minha força”.

E por existir apenas em função de interesses, os indivíduos são livres para participarem de quantas associações desejarem, bem como para delas se desligarem de acordo com sua conveniência. Transformando as relações sociais em relações pessoais, os egoístas podem fruir o mundo, conquistando-o como sua propriedade.

 

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