CONSEQÜÊNCIAS DO OLHAR

EGOALTER

 

 

 

 

 

A aparição do Olhar, não obstante o seu papel petrificador, não tem uma conseqüência negativa no sentido de deixar imobilizada a consciência. Muito pelo contrário, é o caminho pelo qual ela se libera do solipsismo a que a conduz sua pura dimensão de ser-Para-si.

Com efeito, sai de si mesma numa espécie de “relação ek-stática”, como Sartre diz (SN, p. 345), da qual um dos termos é o Para-si e o outro termo é o ser-Para-outro. Esse segundo termo da relação sou eu mesmo, mas fora do meu alcance, fora de minha ação e fora do meu conhecimento. Dita alteridade da consciência está em íntima ligação com a liberdade do Outro e com as suas infinitas possibilidades.

É pelo Olhar do Outro que eu vivo em conexão com o mundo, com os outros e comigo mesmo, além de toda solidão que possa ser imaginada. Mas o preço que se deve pagar para superar a própria alienação do solipsismo é muito alto. Eu fico petrificado, escravizado pela liberdade do Outro, que limita minhas possibilidades e produz um escoamento completo do meu mundo no momento em que sou-visto.

Por isso, Sartre chegará a afirmar que “O inferno são os outros.” (Cf. SARTRE, Huis Clos). O ser humano tem, por estrutura, a qualidade existencial de ser-Para-outro, de estar referido e dependente de outros seres. Para Sartre, isso é uma situação irremediável e necessária, pressupondo que a liberdade ou autonomia total seria a condição ideal, mas impossível de alcançar.

A única defesa com que contamos, segundo Sartre, para nos protegermos da ação petrificadora do Olhar alheio é objetivarmos o Outro para nos libertarmos do nosso ser-Para-outro, conferindo a condição de ser-Para-mim. O que acontece quando percebemos o Olhar (sujeito além de mim) e não os olhos (objeto além de mim), Sartre o descreve da seguinte forma:

 

Em primeiro lugar, o outro é o ser ao qual não volto a minha atenção. É aquele que me vê e que ainda não vejo; (…) aquele que me está presente enquanto me visa e não enquanto é visado; é o pólo concreto e fora de alcance de minha fuga, da alienação de meus possíveis e do fluir do mundo rumo a um outro mundo, mundo este que é o mesmo e, contudo, incomunicável com aquele.

 

Coerentemente, Sartre coloca que não podemos atingir a existência do Outro enquanto objeto conhecido, mas como sujeito que nos faz experimentar que nós somos os objetos. Por isso, não é quando foco a minha atenção no Outro, mas é quando me descuido dele que me sinto um objeto petrificado pelo seu Olhar.

Só aí o Outro se torna presente e urgente. Se estiver envolvido em uma situação de vergonha, por exemplo, o Outro é a presença imensa e invisível que sustenta esta minha vergonha e a envolve por todo lado. Em definitiva: quem é o Outro?

 

Sartre responde:

 

Assim, o outro é para mim, antes de tudo, o ser para o qual sou objeto, ou seja, o ser pelo qual adquiro minha objetividade. Se posso conceber uma só de minhas propriedades ao modo objetivo é porque o outro já está dado. E está dado, não como ser de meu universo, mas como sujeito puro. Assim, este sujeito puro que, por definição, não posso conhecer, ou seja, posicionar como objeto, está sempre aí, fora de alcance e sem distância, quando tento captar-me como objeto. E, na prova do olhar, experimentando-me como objetidade (objectité) não-revelada, experimento diretamente e com meu ser a inapreensível subjetividade do outro. (SN, p. 347)

 

Todavia, o Olhar do Outro não torna só o meu observador num mundo diferente ao meu. Ele destrói toda objetividade para mim. Todo o mundo externo a mim se transforma em um só Olhar que me petrifica. A aparição do Olhar não se dá no mundo, que é o meu mundo consciente, e aqui está a prova concreta, para Sartre, de que “há um para-além do mundo”, uma existência distinta da minha (Cf. SN, p. 347), e que é intrinsecamente livre, com infinitas possibilidades perante mim.

 

 

 

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