A CRÍTICA DE MARX À INDIVIDUALIDADE STIRNERIANA E SUAS RELAÇÕES COM O MUNDO

UNICO SEGNO

 

 

 

 

 

 

A critica marxiana a Stirner não é um ataque à individualidade. Marx não se dedica a demolir seu pensamento porque nele se encontra a defesa intransigente da soberania do indivíduo, mas sim porque nele a forma de ser do ser social – o indivíduo – acha-se transformada em uma fantasmagoria, em uma abstração.

 

Stirner parte da suposição de que o indivíduo possa existir livre de qualquer condição prévia que não seja si mesmo e se desenvolver em um mundo do qual seja o centro. Marx, ao contrário, afirma “que o desenvolvimento de um indivíduo é condicionado pelo desenvolvimento de todos os outros com os quais se encontra em relações diretas ou indiretas”; de modo que “a história de um indivíduo singular não pode em caso algum ser isolada da história dos indivíduos que o precederam ou são seus contemporâneos; ao contrário, sua história é determinada pela deles”.

Em outros termos, o indivíduo real existe “no quadro de condições existentes no mundo real, as quais constituem suas premissas. Assim, o desenvolvimento individual é determinado previamente pelo desenvolvimento social.

Para Marx, a sociabilidade é a substância constitutiva do homem, cuja essência “não é uma abstração inerente ao indivíduo singular. Em sua realidade, é o conjunto das relações sociais” (VI tese Ad Feuerbach). Indicando que “deve-se evitar antes de tudo fixar a ‘sociedade’ como outra abstração frente ao indivíduo, Marx afirma categoricamente: “O indivíduo é o ser social” e o homem “ – por mais que seja um indivíduo particular, e justamente é sua particularidade que faz dele um indivíduo e um ser social individual efetivo – é, na mesma medida, a totalidade, a totalidade ideal, o modo de existência subjetivo da sociedade pensada e sentida para si, do mesmo modo que também na efetividade ele existe tanto como intuição e gozo efetivo do modo de existência social, quanto como uma totalidade de exteriorização de vida humana.

 

Ou seja, para Marx, a sociedade, forma específica que assume a sociabilidade humana, é o meio no qual e a partir do qual as individualidades se realizam; é a esfera decisiva para a efetivação da individualidade, isto é, para a confirmação e potencialização de suas forças essenciais.

 

Produto da atividade apropriadora de mundo dos indivíduos, o conjunto da objetividade social, ao mesmo tempo em que é posto por via da interatividade social dos homens, define o quadro no qual se inscrevem as possibilidades, os meios e modos de objetivação daqueles. Assim, o que caracteriza o ser específico do homem é o fato de que este, no confronto com a mundaneidade objetiva, através de sua atividade social e das formas concretas de sociabilidade, produz, atualiza e reproduz suas determinações ontológicas fundamentais, suas forças essenciais, incluindo-se aí a consciência. Em Marx, portanto, as determinações da individualidade são dadas a partir do desenvolvimento histórico-social da interatividade dos indivíduos. Logo, contrariamente a Stirner, em que o desenvolvimento do indivíduo é um evolver subjetivo e singular, em Marx, refere-se ao evolver objetivo das individualidades, que é simultaneamente subjetivo e social. Face a isso, o indivíduo singular não é uma pura singularidade, mas uma forma singular sob a qual se manifesta a totalidade humano-social.

Dado que o indivíduo é a síntese de suas relações sociais, as quais, por sua vez, são produtos do processo de objetivação genérica do mundo humano, segue-se que a determinação do caráter da individualidade não pode se dar em separado da determinação do caráter da sociedade, tampouco a análise daconstituição da individualidade pode ser destacada da análise da constituição da sociedade.

Por isso, em contraposição a Stirner, Marx afirma que “os homens, longe de quererem formar uma sociedade, sempre a deixaram se desenvolver; isto por sempre terem querido se desenvolver enquanto seres individuais. É esta a razão porque só conseguiram se desenvolver na e pela sociedade. Só um santo da qualidade de nosso Sancho [Stirner] pode ter a idéia de separar o desenvolvimento ‘dos homens’ do desenvolvimento da ‘sociedade’ na qual estes homens vivem”.

 

A cisão operada por Stirner decorre do fato de abordar a individualidade sob o ponto de vista do indivíduo isolado, o que necessariamente engendra a oposição entre ambos; ao contrário de Marx, considera que a sociedade tem existência autônoma em relação à existência dos indivíduos, razão pela qual a efetivação das individualidades só pode se dar a partir da negação da sociedade.

 

Neste sentido, enquanto para Marx a essência da individualidade é produto histórico-social, dada pela relação entre os indivíduos, para Stirner, ao invés, é natural, uma vez que o egoísmo manifesta-se desde o primeiro instante da existência do indivíduo, cujo desenvolvimento se consuma na tomada de consciência, na aceitação de si como egoidade. Assim, para Stirner, o indivíduo é criador de seu próprio mundo, ao passo que, para Marx, são os indivíduos, em sua interatividade objetiva, que se fazem uns aos outros.

 

Cabe ressaltar, no que diz respeito ao processo de objetivação dos indivíduos que, diferentemente de Stirner, os produtos da atividade humana, para Marx, constituem objetos para o próprio homem. Ou seja, os homens, na produção de seus meios de existência, põem coisas que têm efetividade e autonomia em relação a eles. De per se, isto não constitui uma negatividade. Simplesmente aponta para o fato de que cada coisa produzida possui sua lógica própria, que a torna o que é.

 

De sorte que os produtos da objetivação dos indivíduos estão em relação com a subjetividade daqueles do único modo que lhes é possível: como objetos da necessidade, do carecimento e das relações de produção. Ou seja, sempre a partir das suas propriedades imanentes, que depois de postas, vigem por si mesmas, não podendo ser, pois, reabsorvida pela subjetividade. Portanto, para Marx, objetivação não implica, necessariamente, em estranhamento, como para Stirner. O estranhamento se dá, para Marx, em função do modo de organização da produção.

No curso do desenvolvimento histórico, o processo de emancipação dos homens – emancipação que significa a libertação tanto das formas da naturalidade quanto dos modos restritos de interatividade e sociabilidade – segundo Marx, se dá em um quadro de antagonismos entre dominantes e dominados, em função da vigência da propriedade privada e da divisão do trabalho, “expressões idênticas [em que] a primeira enuncia em relação à atividade, aquilo que se enuncia na segunda em relação ao produto da atividade”.

Isto engendrou e engendra, de modo cada vez mais crescente, a subordinação dos produtores à lógica da produção. Por sua vez, com a divisão social do trabalho emerge “ao mesmo tempo a contradição entre o interesse do indivíduo e o interesse coletivo de todos os indivíduos que se relacionam entre si /…/”.

 

E face a esta cisão entre o interesse particular e o interesse geral, os produtos da objetivação humana aparecem aos homens como potências estranhas, que os dominam. Daí a sociedade aparecer frente ao indivíduo singular como um poder que o restringe e o tolhe, impedindo-o de ser ele próprio.

Marx aponta que Stirner apreende tal contradição, mas, procedendo especulativamente, autonomiza os indivíduos em relação à sociedade e, tomando-os como indivíduos isolados, universaliza o antagonismo existente entre as classes sociais oriundas da evolução histórica da produção, apreendendo-o como um antagonismo ineliminável entre indivíduo e sociedade. Outrossim, transforma os interesses de uma determinada classe interesses da sociedade, identificando o direito como a vontade da sociedade em contraposição à vontade do indivíduo e abstraindo a relação existente entre propriedade e direito.

 

Chamando a atenção para o fato de que o direito não é, como pensa Stirner, resultado da vontade autônoma da sociedade, exercida através do Estado, Marx argumenta que “ /../ o direito, a lei, etc., são apenas o sintoma, a expressão de outras relações sobre as quais repousa a potência do Estado.

 

A vida material dos indivíduos, que não depende absolutamente da ‘vontade’, seu modo de produção e suas formas de troca, que se condicionam reciprocamente, são a base real do Estado e permanecem em todos os estágios onde ainda são necessários a divisão do trabalho e a propriedade privada, totalmente independente da vontade dos indivíduos. /…/. Os indivíduos que exercem o poder nestas condições não podem, portanto, abstração feita de que seu poder deve se constituir em Estado, senão dar à sua vontade, determinada por estas condições precisas, a expressão geral de uma vontade de Estado, de uma lei /…/. Não depende de sua vontade idealista, de seu prazer, que seu corpo tenha peso ou não; não depende mais deles impor sua própria vontade sob forma de lei ou de não o fazer, e de afirmá-la, ao mesmo tempo, independente do prazer pessoal de cada um deles, tomado individualmente. Sua dominação pessoal pode apenas se constituir, ao mesmo tempo, como dominação média. Sua dominação pessoal repousa sobre condições de existência que são comuns a um grande número entre eles e dos quais têm, eles, as pessoas do poder, que assegurar a persistência contra outros modos de vida e afirmar como válidas para a generalidade”.

 

A despeito do que julga Stirner, em razão do caráter que tomou a sociabilidade, o interesse particular tornou-se interesse social. Neste sentido, é “justamente o triunfo dos indivíduos, independentes uns dos outros, e de sua vontade pessoal, triunfo que, sobre esta base, só pode ser egoísta quanto a seu comportamento social, que torna necessária a negação de si na lei e no direito. A abnegação é, em realidade, a exceção, enquanto que a afirmação do interesse pessoal é a regra geral (porque eles não vêem nisto uma negação de si, o que só o ‘egoísta de acordo consigo mesmo’ pode ver).

 

O mesmo vale para as classes dominadas: não depende mais de sua vontade que existam lei ou Estado. Enquanto, por exemplo, as forças produtivas não atingirem o ponto de desenvolvimento que torne supérflua a concorrência, /…/ será impossível para as classes dominadas querer ter a ‘vontade’ de abolir a concorrência e com ela oEstado e a lei. De resto, esta ‘vontade’, antes que as condições sociais a possam produzir realmente, só existe na imaginação dos ideólogos”.

 

Portanto, o direito é uma “vontade” objetivamente determinada pela dinâmica da produção – que pode até mesmo ser contrária às volições puramente individuais -, a partir da qual um conjunto de indivíduos, em virtude de deterem os meios de produção da vida, são necessariamente levados a impor sua dominação e seus interesses comuns à totalidade da sociedade. Esta inevitável objetivação do comportamento individual em comportamento social, produto de “um processo histórico que toma diferentes formas nos diferentes estágios da evolução, formas sempre mais acentuadas e mais universais”, decorre do fato de que os indivíduos, para se desenvolverem, são necessariamente levados a estabelecer relações entre si, “não como Eus puros, mas como indivíduos que chegaram a um estágio determinado do desenvolvimento de suas forças produtivas e de suas necessidades”.

 

 

Em verdade, Stirner “quer ou, antes, acredita querer que as relações entre os indivíduos se situem sobre um plano puramente pessoal, que seu comércio não tenha um terceiro como intermediário, um elemento material. Aqui, este terceiro é o ‘elemento particular’ /…/, dito de outro modo, a situação recíproca dos indivíduos, determinada pelas condições sociais atuais. Sancho, por exemplo, não quer que dois indivíduos estejam ‘em oposição’ enquanto bourgeois e proletário; ele protesta contra este ‘elemento particular’ que ‘dá uma vantagem’ ao bourgeois sobre o proletário. Ele queria fazê-los entrar em relação puramente pessoal, fazê-los simples indivíduos que mantêm relações entre si”.

 

Entretanto, salienta Marx, “Ele não reflete que, no quadro da divisão do trabalho, as relações pessoais evoluem de maneira necessária e inevitável em direção às relações de classe e se cristaliza como relações de classe; toda sua verborragia se reduz, por conseqüência, a um voto piedoso que ele imagina realizar exortando os indivíduos que fazem parte destas classes a tirar da cabeça a noção de sua ‘oposição’ ou de seu ‘privilégio’ ‘particular’”.

 

 

Marx ressalta, ainda, que embora Stirner queira abolir o caráter autônomo das condições existentes em relação aos indivíduos, sua crítica às relações 45sociais se reduz tão-somente a uma interpretação que as conserva e justifica.

 

A feição conservadora e em certos aspectos retrógrada das proposituras stirnerianas se evidencia, para Marx, a partir do exame da associação dos egoístas, uma vez que nesta mantém-se a propriedade privada, a divisão do trabalho, o dinheiro, tudo isso justificado com o devido tratamento especulativo. Não levando em consideração o caráter restritivo que as condições e estruturas sociais vigentes impõem aos indivíduos, Stirner não apreende as potencialidades humanas como resultantes do patamar de humanidade atingido em momentos determinados do desenvolvimento social, em função da apropriação objetiva e subjetiva propiciada pelo avanço das forças produtivas.

 

 Considera-as como algo imutável, naturalmente dado. Neste sentido, ao afirmar que os indivíduos são tão-somente aquilo que podem ser, independentemente das circunstâncias, Stirner, diz Marx, considera como determinação natural do gênero o que é conseqüência da divisão do trabalho,

 

 

Marx acentua, outrossim, que a expressão do modo de vida burguês se evidencia nas relações de utilidade que garantem a harmonia da associação. Segundo ele, “esta aparente tolice que consiste em reduzir as múltiplas relações que os homens têm entre si a essa relação única de utilização possível, esta abstração de aparência metafísica, tem como ponto de partida o fato de na sociedade burguesa moderna todas as relações serem praticamente subordinadas e reduzidas à simples relação monetária abstrata, à relação de troca. /…/ No caso presente, a relação de utilidade tem um sentido totalmente preciso: significa que eu tiro proveito do prejuízo que causo a outro (exploitation de l’homme par l’homme).

 

Por outro lado, Marx põe em relevo a inocuidade do pensamento de Stirner analisando a revolta e sua contraposição à revolução. Em suas palavras, “a diferença que separa a revolução da revolta segundo Stirner não é /…/ que uma seja um ato político e social e que a outra seja um ato egoísta, mas, ao contrário, que uma é um ato e a outra não. /…/. Se ele estivesse preocupado com os indivíduos reais, existentes em toda revolução, bem como suas condições de 46(idem). Reflete, enfim, “a velha ilusão segundo a qual depende apenas da boa vontade das pessoas para que as condições existentes, consideradas como idéias, sejam transformadas. Querer transformar a consciência, uma consciência separada das condições reais, isto do que os filósofos fazem uma profissão, isto é, um negócio, eis ainda um produto, um elemento constitutivo destas condições existentes.

 

Elevar-se como idéia, acima do mundo, é a expressão ideológica da impotência dos filósofos frente ao mundo. Sua jactância ideológica é desmentida todos os dias pela prática”existência, em lugar de se contentar com o Eu em estado puro e com a ‘ordem estabelecida’, /…/ teria talvez acabado por compreender que toda revolução, tanto quanto os resultados aos quais chega, são determinados por estas condições de existência dos indivíduos, por suas necessidades, e que não há nenhuma oposição entre o ‘ato político ou social’ e ‘o ato egoísta’”.

Além do mais, aponta Marx, “nem sequer é bafejado pela idéia de que a ‘situação’ foi sempre, precisamente, a situação destes homens, e que nunca foi possível transformá-la sem que os próprios homens se transformassem e que, para chegarem a isso, tivessem ficado ‘descontentes consigo mesmos’ na sua situação anterior”.

 

A revolta stirneriana é, pois, para Marx, um ato reacionário e tão-somente exprime a impotência do indivíduo que, oprimido e alienado por força de relações sociais existentes, consola-se em as abolir no âmbito de sua consciência e se ilude com um pseudo domínio de si, ao invés de buscar a transformação destas relações.

 

Também para Marx, a libertação dos indivíduos de todas as formas de limitações significa a reapropriação de suas forças individuais. No entanto, a superação da alienação, isto é, a superação do estranhamento dos indivíduos frente a uma objetividade estranhada, requer a superação prática das circunstâncias que demandam a vigência da propriedade privada e da divisão do trabalho. A partir disso, os produtores poderão controlar, conscientemente, os poderes que “engendrados pela ação recíproca dos homens impuseram-se a eles como poderes totalmente estranhos”.

 

Há que pôr em relevo que não se trata de uma dissolução da objetividade pelo sujeito, tampouco uma reabsorção deconteúdos da consciência, como em Stirner, mas a reapropriação, pelos indivíduos, de suas forças essenciais.

De modo que, conclui Marx, “A ‘unicidade’, tomada no sentido de desenvolvimento original e de comportamento individual /…/ pressupõe, portanto, bem mais que a boa vontade e uma justa consciência das coisas; ela pressupõe precisamente o contrário das bobagens de Sancho. Nele, não passa de um embelezamento das condições existentes, uma pequena gota de bálsamo para consolar esta pobre alma impotente que um mundo miserável tornou miserável”.

 

Em outros termos, Stirner acolhe, acrítica e especulativamente, em suas feições mais aparentes, as manifestações estranhadas de um momento histórico particular da individuação humana e, transmutando-as em essência da individualidade, trata-as como atributos eternos. Assim procedendo, erige como individualidade um ente que, empobrecido e constrangido pelas condições objetivas engendradas no curso contraditório da interatividade social, pode somente se comprazer com a ilusão de uma potência imaginária sobre si e sobre o mundo.

 

 

 

 

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