A DIFICULDADE DA “FALSA VERGONHA”

EGOALTER

Ainda subsiste a dificuldade da falsa vergonha. Se a presença do Outro não pode ser posta em dúvida em função do sentimento de vergonha, é importante perguntar se tal sentimento corresponde sempre a um Olhar verdadeiro e existente. É sempre possível que o Olhar do Outro seja provável.

Talvez seus olhos estejam voltados para mim e ele esteja concentrado em outra coisa, sem realmente estar me vendo. Não posso ter certeza que o homem que está atrás de mim esteja me olhando realmente, nem posso saber se realmente o barulho no matagal seja de algum espião. Então, o questionamento que surge agora como obstáculo é o seguinte: “Em suma, o olhar, por sua vez, será que não irá tornar-se provável pelo fato de que posso constantemente supor estar sendo visto sem sê-lo? E toda a nossa certeza da existência do outro não irá retomar, por isso mesmo, caráter puramente hipotético?” (SN, p. 353). De fato, toda a construção da evidência existencial do Outro depende do nosso sentimento de vergonha. Então, se esse sentimento não corresponder a uma realidade concreta, quer dizer que estamos sujeitos à falsidade. A dificuldade se manifesta assim para Sartre:

Nesse caso, que resulta da minha certeza de ser visto? Minha vergonha era, com efeito, vergonha frente a alguém: mas ninguém está aí. Por isso, será que não se torna vergonha frente a ninguém, ou seja, uma vez que coloquei alguém aí onde há ninguém, será que não se torna falsa vergonha? (SN, p. 354)

A dificuldade é interessante e tem a “vantagem de avançar nossa indagação e sublinhar com maior nitidez a natureza de nosso ser-Para-outro.” (SN, p. 354). Narealidade, a pergunta que está no fundo é a seguinte: é o sentimento da vergonha em si que produz a certeza da existência do outro ou, ao inverso, é a existência do outro, enquanto nos olha, que nos produz esse sentimento de vergonha? No caso de que esse sentimento surja e se trate de um engano, quer dizer que é possível surgir uma falsa vergonha que venha trazer o caráter de improbabilidade ao Outro enquanto existente?

Para Sartre, não se trata de uma real dificuldade, já que a possibilidade de um erro na apreciação da presença real do outro é possível apenas se admitirmos que a vergonha possa trazer uma certeza existencial do Outro.

 

Da mesma forma que não deixamos de acreditar nos órgãos da visão mesmo que surjam ilusões óticas, também não devemos considerar que a falsa vergonha seja um obstáculo real na superação do solipsismo efetuada por Sartre. De tal forma, não é possível submeter à dúvida a vergonha com esse tipo de raciocínio sofístico: “Seria o mesmo que duvidar da minha própria existência porque as percepções que tenho do meu próprio corpo (quando vejo minha mão, por exemplo) estão sujeitas a erro.” (SN, p. 354-355).
A explicação definitiva a este problema é que há uma confusão de planos. A vergonha surge diante do Outro-Sujeito e não do Outro-Objeto-corpo. Por isso, a certeza que se tem é a evidência de ser visto e o apenas provável é que o olhar esteja vinculado a tal ou qual presença intramundana. Isso não deve surpreender, pois Sartre lembra que “jamais são olhos que nos vêem, e sim o outro como sujeito.” (SN, p. 355). Se ocorrer que estou olhando pelo buraco da fechadura e sinto passos no corredor, ficarei muito ruborizado. Em relação a esse falso alarme, que é que apareceu enganosamente e se destruiu por si só? Sartre responde:

Não é o outro-sujeito nem sua presença a mim: é a facticidade do outro, ou seja, a conexão contingente entre o outro e um ser-objeto em meu mundo. Assim, o duvidoso não é o outro em si mesmo, mas o ser-aí do outro, ou seja, este acontecimento histórico e concreto que podemos exprimir pelas palavras: “Há alguém neste quarto”. (SN, p. 356-357).

Portanto, se eu comprovar que se tratava de um falso alarme, posso voltar a espiar pela fechadura, mas já estou na condição de ser visto. Cada ruído será motivo de medo e de atenção especial. O Outro começa a me rodear por todas as partes e já me sinto objeto, apesar de não estar sendo visto atualmente por nenhum par de olhos.

 

 

 

 

 

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