EM TORNO DO CONCEITO DE SOLIPSISMO:ABORDAGEM EPISTEMOLÓGICA

SOLIP

 

A busca pela verdade, ou por uma evidência fundamental que pudesse sustentar as demais coisas, foi vista pelos filósofos sempre como uma possibilidade alcançável. Mas para se obter algo indubitável é preciso o uso de alguns recursos metodológicos apropriado com a finalidade de garantirem que tal empreitada tenha êxito.

A seu turno, René Descartes pretendia buscar uma certeza apodíctica inabalável sobre a qual poderia construir toda a base do conhecimento e das ciências. Para isso, na primeira meditação de sua obra Meditações Metafísicas, Descartes, lançando mão ao método da dúvida (ceticismo metodológico), questiona tudo aquilo que não for claro e distinto, inicialmente colocando em dúvida a verdade provinda dos sentidos, por apresentarem um caráter enganador. Em relação a isso, afirma Descartes:

Desde os meus primeiros anos, recebera grande quantidade de falsas opiniões como verdadeiras e que o que fundei sobre princípios tão mal assegurados só podia ser muito duvidoso e incerto; de forma que me era preciso empreender seriamente, uma vez em minha vida, desfazerme de todas as opiniões que até então aceitara em minha crença e começar tudo de novo desde os fundamentos, se quisesse estabelecer algo firme e constante nas ciências

Descartes pensa que todas as ciências existentes são ramificações de uma única ciência, a filosofia. Esta, por sua vez, carecendo de fundamentos seguros que não são mais de ordem ontológica, ou mesmo, do tipo divino, necessita das mesmas características das ciências matemáticas. Deste modo, o filósofo, convencido que a filosofia que o precede estava necessitando de uma evidência apodíctica, “tentará clarificá-la, dando-lhe as mesmas características de clareza e rigor das ciências fundadas na matemática”. Assim,

Descartes se dedica a um empreendimento sem precedente na história da filosofia: trata-se de obter para as ciências um fundamento que não mais seja da ordem ontológica da natureza ou do cosmos, como é o caso na antiguidade, ou tampouco de tipo divino, como à época medieval, mas cujo lugar seja ocupado pelo próprio sujeito.

Ao pôr tudo em dúvida, as impressões provindas dos sentidos, a própria existência, resta a Descartes apenas voltar-se para si mesmo, isolando-se das coisas duvidáveis que o cercam. Não obstante, teriam algumas questões que não coubesse duvidar, como por exemplo, da minha (sujeito em questão) existência ou das verdades matemáticas, mas que, baseando-se que todas as coisas têm a possibilidade de serem enganadoras, também poderia existir um Deus enganador ou um gênio maligno capaz de manipular as situações vivenciadas pelo sujeito.
Não se pode duvidar de que se pensa, esta é a conclusão da segunda meditação. E é a partir dessa constatação que todas as demais coisas devem se recolocar. Por mais que o sujeito possa duvidar que exista, não pode duvidar que duvida, visto que, ainda que existisse um gênio enganador, enquanto eu pensar, será alguma coisa. Assim conclui Descartes:

Não há duvida, então de que sou, se ele me engana; e que me engane o quanto quiser, jamais poderá fazer com que eu não seja nada, enquanto eu pensar ser alguma coisa. De sorte que, após ter pensado bem nisso e ter cuidadosamente examinado todas as coisas, é preciso enfim concluir e ter por constante que esta proposição, Eu sou, eu existo, é necessariamente verdadeira todas as vezes que a pronuncio ou que a concebo em meu espírito.

Descartes se propõe a fazer da filosofia uma ciência universal baseada em uma verdade última e fundamental, recorrendo aos princípios das ciências matemáticas que estavam, na sua época, no auge de ser o modelo de ciência por se utilizarem do método dedutivo. Assim, tendo em vista o “eu sou, eu existo”, Descartes chegaria ao ponto arquimediano que tanto almejava:

Arquimedes, para tirar o globo terrestre da sua posição e transportá-lo para outro lugar, nada pedia senão um ponto que fosse fixo e assegurado. Assim, terei direito de conceber altas esperanças, se for feliz o bastante para encontrar somente uma coisa que seja certa e indubitável.

A partir do momento em que Descartes põe em dúvida tudo aquilo que não traz em si nenhuma certeza, ele atinge a descoberta de algo primordial, uma certeza ou evidência primeira, o “cogito”. Esta é a certeza indubitável que não pode ser alcançada pela dúvida e assim, a partir do cogito, todas as demais certezas podem vir a ser edificadas. Pode-se duvidar de todas as coisas sensíveis, pois são, para o filósofo Francês, enganosas; pode-se, sobretudo, duvidar até da própria existência física, porém, nunca pode-se duvidar do ego cogito, pois este é imune a qualquer dúvida. A dúvida é intrínseca ao pensar. Ao duvidar se pensa e, ao pensar se existe. E em relação a isto, não há dúvidas.
Certamente, “é no Cogito, isto é, na subjetividade, que ele vai encontrar a primeira evidência, de sabor matemático que ele precisava”. Este ardor científico começa na filosofia de Descartes a ganhar maior rigor, fazendo do cogito aquela certeza indubitável que este tanto esperava. Todos os demais tipos de conhecimentos e evidências são sobpostas a partir do pensar do sujeito.
Dado a evidência do cogito, ocasionado pela dialética da dúvida, a empreitada cartesiana perpassa por um momento importante de solipsismo. Se todas as demais coisas tendem a se recolocar depois da dúvida, cabe a Descartes apresentar uma solução para que sua filosofia não se baseie somente em suas idéias, mas procurar uma saída de si provando o universal. Contudo, a solução para o solipsismo se confunde com a tentativa de resolver o problema da existência de Deus. Descartes não desenvolve a questão tentando evidenciar que outras mentes existem, mas antes, provar pela imanência da razão algo que a transcende, uma busca pela verdade divina amparada pelo argumento ontológico.
Ao mesmo tempo em que Descartes descobre a subjetividade transcendental ele transforma-a num resíduo do mundo, constatando a certeza acerca do mundo físico, bem como equiparando a subjetividade com a alma, tentando provar que a certeza que tenho sobre a existência do mundo foi posta por Deus em minha alma. Dessa forma, preso numa confusão psicológica com a egológica, Descartes não consegue explorar os motivos transcendentais de sua descoberta do cogito, visto que acaba concebendo a razão como algo absoluto devido a dependência de um ser divino que garante a possibilidade de todo conhecimento possível.

 

 

 

 

 

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