A EXISTÊNCIA DO OUTRO

O SER-PARA-SI

 

 

 

 

 

 

Sartre busca, então, um modo pelo qual o Outro se nos apresente como sujeito com a marca da evidência irrefutável. Ele acredita encontrar este meio na experiência do olhar, pela qual a consciência percebe-se como objeto da atenção do outro, que o petrifica com a sua presença. Dita vivência não é cognitiva, pois aborda uma modalidade da presença do Outro que não é objetiva nem, portanto, meramente provável.

Sartre chama esta relação fundamental de ser-Para-outro. Percorrendo uma minuciosa análise fenomenológica, o existencialista francêsdescobre e postula: “se o outro-objeto define-se em conexão com o mundo como objeto que vê o que vejo, minha conexão fundamental com o outro-sujeito deve poder ser reconduzida à minha possibilidade permanente de ser visto pelo outro.” (SN, p. 331).

Nesta “experiência dialética” não há possibilidade de uma relação nem de sujeito-sujeito nem de objeto-objeto. Dependendo do ato de olhar ou de ser olhado, a consciência percebe-se empiricamente a si mesma como sujeito diante de um objeto ou como um objeto diante de um sujeito. De Sartre: “se apreendo o olhar, deixo de perceber os olhos” (SN, p. 333).

 A EXISTÊNCIA OBJETIVA DO OUTRO

A certeza fenomenológica da existência do Outro é algo que fica fora de toda dúvida. A objetividade da consciência alheia é uma modalidade verdadeira da presença do Outro para mim. Sartre oferece o seguinte exemplo: “Esta mulher que vejo andando em minha direção, este homem que passa na rua, esse mendigo que ouço cantar de minha janela são objetos para mim, sem a menor dúvida.” (SN, p. 326). Porém, está claro que a certeza ontológica da existência do Outro não “permanece meramente conjetural”. Assim o expressa em O Ser e o Nada:

Ora, não é somente conjetural, mas provável, que esta voz que ouço seja a de um homem e não o canto de um fonógrafo, é infinitamente provável que o transeunte que vejo seja um homem e não um robô aperfeiçoado. Significa que minha apreensão do outro como objeto, sem sair dos limites da probabilidade e por causa desta probabilidade mesmo, remete por essência a uma captação fundamental do outro, na qual este já não irá revelar-se a mim como objeto, e sim como “presença em pessoa”. (SN, p. 327)

Nas teorias clássicas, tanto realistas como idealistas, o problema da alteridade tem sido encarado geralmente como se a relação primeira, pela qual o outro se revela, fosse a objetividade. Então, o outro se revelaria primeiro a nossa percepção e logo, por uma espécie de intuição obscura e inefável, se atingiria a subjetividade do outro, que seria uma espécie de númeno kantiano (Cf. SN, p. 327). O idealismo soa mais simpático, aos ouvidos de Sartre, quando estabelece uma relação fundamental e direta da minha subjetividade com a do outro sujeito. Essa relação seria do mesmo tipo de meu ser-Para-outro.

Entretanto, ele não concorda com que dito contato imediato seja alguma experiência mística ou algoinefável, pois é na realidade cotidiana que o outro nos aparece e sua probabilidade se refere à existência cotidiana. Assim, Sartre precisa ainda mais o foco do problema solipsista: “será que existe na realidade cotidiana uma relação originária com o outro que possa ser constantemente encarada e, por conseguinte, possa me ser revelada fora de toda referência a um incognoscível religioso ou místico?” (SN, p. 328).

Para responder essa questão, Sartre recorre a algumas análises fenomenológicas que tentam revelar a relação certa da própria consciência com a do Outro.

Primeiro, descreve a própria presença num jardim público. Nele tem gramado, assentos e um homem que passa perto. Esse homem é captado como objeto entre os demais objetos. Por isso, a existência do Outro conserva um puro caráter de probabilidade:

…primeiro, é provável que este objeto seja um homem; segundo, mesmo na certeza de que se trate de um homem, permanece somente provável que ele veja o gramado no mesmo momento que eu o percebo: pode estar pensando em outra coisa, sem tomar consciência nítida do que o cerca, pode ser cego, etc. (SN, p. 329)

A mera probabilidade da existência do Outro já o torna um centro de referência autônomo dentro do meu mundo percebido. Aqui surge uma primeira ameaça à minha subjetividade e ao meu controle das coisas que me rodeiam. A presença alheia faz com que se produza uma brecha no meu campo de experiência que me é desconhecido, justamente porque se trata de outra consciência que vê a totalidade de forma diferente da minha.

 

 

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