NEGAÇÃO DO INDIVÍDUO:A CATEGORIA DA ALIENAÇÃO

NEGAÇÃO SU

Para Stirner, o egoísmo é ineliminável e se manifesta mesmo naqueles que se devotam ao espiritual porque, ressalta, “o sagrado existe apenas para o egoísta que não se reconhece como tal, o egoísta involuntário, que está sempre à procura do que é seu e ainda não se respeita como o ser supremo, que serve apenas a si mesmo e pensa ao mesmo tempo servir sempre a um ser superior;

que não conhece nada superior a si e se exalta, contudo, pelo ‘superior’, enfim, para o egoísta que não gostaria de sê-lo e se rebaixa, ou seja, combate o seu egoísmo, rebaixando-se, contudo, ‘para elevar-se’ e satisfazer, portanto, seu egoísmo.

 

Querendo deixar de ser egoísta, ele procura em seu redor, no céu e na terra, por seres superiores para oferecer-lhes seus serviços e se sacrificar. Mas, embora se agite e se mortifique, ele age, no fim das contas, apenas por si mesmo e pelo difamado egoísmo que não o abandona. Por isso, eu o chamo egoísta involuntário”.

Mas se assim o é, por que isso se dá? Ou seja, por que seres essencialmente egoístas se alienam?

Na descrição das fases da vida, encontra-se explícito que o indivíduo é, ele próprio, não só a fonte do que é mas também de sua negação, de sua perda, uma vez que mesmo quando é dominado pelos pensamentos, ele é dominado por seus pensamentos que, por não serem reconhecidos como seus, adquirem existência autônoma em relação ao eu que os produziu. No entanto, é a partir de outro texto, intitulado Arte e Religião,, que se pode compreender com mais clareza o que constitui este fenômeno. Analisando a relação entre arte e religião, Stirner aponta que a arte é manifestação da “ardente necessidade que o homem tem de não permanecer só, mas de se desdobrar, de não estar satisfeito consigo como homem natural, mas de buscar pelo segundo homem, espiritual”.

A resolução desta necessidade se dá com a obra de arte, dado que ela configura, objetivamente, o ideal do homem de transcender a si próprio. Com a obra de arte, o homem fica em face de si mesmo; porém, “O que lhe está defronte é e não é ele: é o além inatingível em direção ao qual fluem todos os seus pensamentos e todos os seus sentimentos, é seu além envolvido e inseparavelmente entrelaçado no aquém de seu presente”. Enquanto a arte é posição de um objeto, a religião “é contemplação e precisa, portanto, de uma forma ou de um objeto”ao qual se defrontar.

Segundo Stirner, “o homem se relaciona com o ideal manifestado pela criação artística como um ser religioso: ele considera a exteriorização de seu segundo eu como um objeto. Tal é a fonte milenar de todas as torturas, de todas as lutas; porque é terrível ser fora de si mesmo, e todo aquele que é para si mesmo seu próprio objeto é impotente para se unir totalmente a si e aniquilar a resistência do objeto”.

Logo, a arte dá forma ao ideal e a religião “encontra no ideal um mistério e torna a religiosidade tanto mais profunda quanto mais firmemente cada homem se liga a seu objeto e é dele dependente”.

Portanto, a alienação ocorre no processo de objetivação da individualidade e se dá pelo fato de o indivíduo contemplar sua exteriorização como algo que não lhe pertence, como algo por si, que o transcende. Contempla a si através de uma mediação, relacionando-se consigo mesmo de modo estranhado, pois não reconhece o objeto como sua criatura, convertendo-o em sujeito.

O que Stirner recusa é a transcendência do objeto sobre o sujeito. Isto porque “o objeto, sob sua forma sagrada como sob sua forma profana, como

Torna-se claro, pois, que Stirner não leva em consideração a existência dos objetos, ou seja, o que eles são em si, independente da subjetividade, e somente admite a efetividade dos objetos na medida em que esta é estabelecida, sancionada pelo sujeito. objeto supra-sensível tanto quanto objeto sensível, nos torna igualmente possuídos”, uma vez que, tomado como algo por si, obriga o sujeito a se subordinar à sua lógica própria. Destrói-se, assim, “a singularidade do comportamento, estabelecendo um sentido, um modo de pensar como o ‘verdadeiro’, como o ‘único verdadeiro’ ”.

Contra isso, Stirner argumenta que “o homem faz das coisas aquilo que ele é” ou seja, as determinações das coisas são diretamente oriundas e dependentes do sujeito. E ironizando o conselho dado por Feuerbach, o qual adverte que se deve ver as coisas de modo justo e natural, sem preconceitos, isto é, de acordo e a partir daquilo que elas são em sua especificidade, Stirner aponta que “vê-se as coisas com exatidão quando se faz delas o que se quer (por coisas entende-se aqui os objetos em geral como Deus, nossos semelhantes, a amada, um livro, um animal, etc.).

Por isso, não são as coisas e a concepção delas o que vem em primeiro lugar mas Eu e minha vontade”. Então, “Porque se quer extrair pensamentos das coisas, porque se quer descobrir a razão do mundo, porque se quer descobrir sua sacralidade, se encontrará tudo isso”, pois “Sou Eu quem determino o que Eu quero encontrar. /…/ Eu escolho o que meu espírito aspira e por esta escolha Eu me mostro – arbitrário”.

A indiferença para com o objeto se dá em função de que “Toda sentença que Eu profiro sobre um objeto é criação de minha vontade /…/. Todos os predicados dos objetos são resultados de minhas declarações, de meus julgamentos, são minhas criaturas. Se eles querem se libertar de Mim e ser algo por si mesmos, se eles querem se impor absolutamente a Mim, Eu não tenho nada mais a fazer senão apressar-Me em restabelecê-los a seu nada, isto é, a Mim, o criador.

De modo que a relação autêntica entre sujeito e objeto só se dá quando as propriedades dos objetos forem acolhidas como frutos das deliberações dos indivíduos. Conseqüentemente, pelo fato de ser o sujeito aqueleque põe a objetividade do objeto, segue-se que não se pode ter determinações universais sobre as coisas, mas tão somente determinações singulares, postas por sujeitos singulares, rompendo-se, assim, a dimensão da objetividade como imanência.

Acatar a objetividade como algo por si é, para Stirner, abdicar da existência pois o único ser por si é o indivíduo, produtor de seu universo existencial. Por isso, não condena as convicções, crenças e valores que os indivíduos possam abraçar. Apenas não admite que sejam tomados como algo mais que criaturas: “Deus, o Cristo, a trindade, a moral, o Bem, etc. são tais criaturas, das quais eu devo não apenas Me permitir dizer que são verdades, mas também que são ilusões. Da mesma maneira que um dia Eu quis e decretei sua existência, Eu quero também poder desejar sua não existência.

Eu não devo deixá-los crescer além de Mim, ter a fraqueza de deixá-los tornar algo ‘absoluto’, eternizando-os e retirando-os de meu poder e de minha determinação. Portanto, os indivíduos podem crer, pensar, aspirar, contanto que não percam de vista que são eles o fundamento das crenças, pensamentos e aspirações, bem como daquilo que crêem, pensam e aspiram. Neste sentido, a superação da alienação significa, pois, a absorção da objetividade pela subjetividade, requerendo somente que o indivíduo tome consciência de que por trás das coisas e dos ideais não existe nada a não ser si mesmo; em suma, exige que o indivíduo negue autonomia a tudo que lhe é exterior e tome apenas a si como ser autônomo, que atribua somente a si a efetividade da existência.

O caráter puramente subjetivo que Stirner confere à apropriação da objetividade salienta-se plenamente quando se analisa a revolta individual, condição de possibilidade para o reconhecimento de si como base da existência. Segundo ele, reflete um descontentamento do indivíduo consigo mesmo, razão pela qual “Não se deve considerar revolução e revolta como sinônimos. A revolução consiste em uma transformação das condições, da situação existente, do Estado ou da Sociedade; é, por conseqüência, uma ação política ou social; a revolta tem como resultado inevitável uma transformação das condições, mas não 20. parte delas; ao contrário, porque parte do descontentamento do homem consigo mesmo, não é um levante planejado, mas uma sublevação do indivíduo, uma elevação, sem levar em consideração as instituições que dela nascem. A revolução tem em vistas novas instituições, a revolta nos leva a não Nos deixar mais instituir, mas a Nos instituir Nós mesmos e a não depositarmos brilhantes esperanças nas ‘instituições’.

Ela é uma luta contra o existente porque, quando é bem sucedida, o existente sucumbe por si mesmo, ela é apenas a Minha libertação em relação ao existente. Assim que Eu abandono o existente, ele morre e apodrece. Ora, como meu propósito não é a derrubada do existente, mas elevar-Me acima dele, então minha intenção e ação não é política ou social, mas egoísta, como tudo que é concentrado em Mim e em minha singularidade”.

Em outros termos, a revolta parte e se dirige à subjetividade e a revolução à objetividade, razão pela qual a primeira é uma ação autêntica e a segundo uma ação estranhada do indivíduo. E dado a supremacia do sujeito, prescinde de qualquer modificação sobre o objeto. Seguindo as palavras de Giorgio Penzo, em sua introdução à edição italiana de O Único e Sua Propriedade, “é obviamente apenas com o ato existencial da revolta que se pode tornar menor a afecção do objeto, pelo que o eu se reconhece totalmente livre no confronto com o objeto”

Há que observar, contudo, que tal reconhecimento significa tão somente aceitar o objeto como tal, tomando-se, no entanto, como o árbitro de tal aceitação. Neste sentido, Stirner pretende a afirmação da individualidade apesar e a despeito das coisas. Não se deixando reger pelos objetos, ainda que acatando as determinações da objetividade como posição de sua vontade, o indivíduo abre as vias para o início de sua verdadeira e plena história, a história do único e sua propriedade.

 

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