NEGAÇÃO DO SENSÍVEL

NEGAÇÃO

 

 

 

 

 

Segundo Stirner, a modernidade segue um processo análogo à antigüidade. Assim, sob a égide do catolicismo, o espírito ainda se encontrava ligado ao mundo. Foi apenas a partir da Reforma que começou-se a considerar o espírito como algo absolutamente independente da matéria.

O protestantismo destrói o mundo santificando-o, isto é, introduzindo o espírito em todas as coisas. Reconhecendo o espírito santo como essência do mundo, este se torna sagrado por sua simples existência.

 

Ao mesmo tempo em que redime o concreto, preenchendo-o com o espírito, Lutero preconiza a necessidade de rompimento da consciência para com toda dimensão sensível, uma vez que “a verdade é espírito, absolutamente não sensível e, por isso, existe somente para a ‘consciência superior’ e não para a consciência com ‘inclinação mundana’ ”.

 

Por conseguinte, “alcança-se com Lutero o reconhecimento de que a verdade, que é pensamento, existe apenas para o homem pensante. O que significa que doravante o homem deve simplesmente adotar um outro ponto de vista, o ponto de vista celeste, da crença, da ciência ou o ponto de vista do pensamento em relação a seu objeto – o pensamento, o ponto de vista do espírito face ao espírito. Enfim, apenas o igual reconhece o igual! ‘Tu te igualas ao espírito que Tu compreendes’ ”.

 

A soberania do espírito que se estabelece plenamente a partir da Reforma é referendada pela filosofia, ocorrendo a legitimação teórica do caráter absolutamente espiritual do ser. Este processo se inicia com Descartes, que identifica o ser ao pensar, e se completa com a filosofia hegeliana, na qual “Os pensamentos devem corresponder totalmente à realidade, ao mundo das coisas e nenhum conceito pode ser desprovido de realidade”, dando-se, enfim, a reconciliação entre as esferas espiritual e objetiva. Em suma, o resultado alcançado pelos modernos é que tanto no homem quanto na natureza somente o espírito vive, somente sua vida é a verdadeira vida. De modo que a modernidade culmina em uma abstração: “a vida da universalidade (Allgemeinheit) ou do que não tem vida”.

 

 

Sobre a crítica de Stirner à filosofia idealista, cabe destacar dois aspectos. O primeiro diz respeito ao apontamento da inversão ontológica que o idealismo opera, transformando o imaterial, o não sensível em origem e realidade do concreto, do sensível, bem como à censura da dissolução do particular na universalidade abstrata. Nisto se põe em consonância com a crítica de Feuerbach e Marx à especulação, distinguindo-se os três, entretanto, quanto ao que é determinado como o efetivamente concreto e quanto ao que é apontado como o princípio geral de determinação – para Stirner, apenas o indivíduo singular e o egoísmo.

 

O segundo, que constitui um dos pontos determinantes da crítica de Marx, revela, ao nosso ver, o núcleo do pensamento stirneriano. Stirner ressalta a concretude que os ideais adquiriram ao longo da modernidade, o que poderia levar a supor que visa recuperar o mundo objetivo, livrando-o do peso da abstração.

 

 

No entanto, para ele, o que constitui a falha capital deste período vem a ser precisamente a não superação da objetividade, condição fundamental para a afirmação da individualidade pois, argumenta, “Como pode-se alegar que a filosofia ou a época moderna trouxe a liberdade, já que ela não nos libertou do poder da objetividade? /…/ Ela somente transformou os objetos existentes /…/ em objetos representados, isto é, em conceitos, diante os quais não só não se perdeu o antigo respeito, mas, ao contrário, se o intensificou. /…/ Por fim, os objetos apenas sofreram uma transformação, mas conservaram sua supremacia e soberania; enfim, continuou-se submerso na obediência e na obsessão, vivendo na reflexão, com um objeto sobre o qual refletir, um objeto para respeitar e acolher com veneração e temor. Apenas se transformou as coisas em representações das coisas, em pensamentos e conceitos e a dependência em relação a elas tornou-se tanto mais íntima e indissolúvel”.

 

De modo que o fundamental para Stirner também é atingir a liberdade em relação à objetividade. E visando realizar o que a modernidade não pôde efetuar, dado que não partia do verdadeiramente real, aponta a necessidade de supressão de qualquer mediação entre o indivíduo e si mesmoDeve-se pôr em relevo, outrossim, que embora critique o conteúdo, Stirner acolhe o movimento e segue o método da filosofia hegeliana. É nítida a similitude entre o caminho percorrido pelo eu em direção a si próprio e aquele que Hegel estabelece à consciência em direção à razão.

 

A diferença básica reside precisamente no ponto final do percurso. Se na filosofia de Hegel a consciência trilha um caminho que culmina no saber de si enquanto figura do Absoluto, em Stirner a consciência individual também chega a um saber, que vem a ser o conhecimento de que somente ela é o fundamento de toda realidade, de toda existência ou, em outros termos, ao reconhecimento de si como o absoluto. Ou seja, em Hegel tem-se a fenomenologia do universal que se desdobra em particulares – os quais constituem momentos deste universal -, enquanto que em Stirner tem-se a fenomenologia de uma singularidade em confronto com qualquer dimensão de universalidade, tomada como pura negação da individualidade.

 

Voltando à questão do domínio do espiritual na modernidade, Stirner submete à critica o humanismo ateu que se desenvolve em sua época, atentando para o fato de que, embora se ataque a essência sobre-humana da religião, não se abandonou a postura religiosa, uma vez que o posicionamento anti-religioso resultou tão somente na humanização da religião, simplesmente operando a substituição de Deus pelo homem.

 

Permanecem prisioneiros do princípio religioso porque o homem que se torna o novo ser supremo não se refere ao indivíduo singular, mas à espécie, ao gênero humano. Se outrora o espírito de Deus ocupava o indivíduo, agora ele se encontra ocupado e se pauta pelo espírito do Homem. De modo que “o comportamento em direção ao ser humano ou ao ‘homem’ apenas removeu a pele de serpente da antiga religião para assumir uma nova, igualmente religiosa”. A conquista da humanidade torna-se, assim, o ideal diante o qual o indivíduo deve se curvar, o alvo sagrado que deve atingir.

 

Com a vitória do Homem sobre Deus dá-se a substituição dos preceitos religiosos pelos preceitos morais. Esta moral puramente humana – que segue sua própria rota orientando-se pela razão, dado que “na lei da razão o homem se determina por si mesmo, porque ‘o homem’ é racional e é ‘do ser do homem’ que

 

 

, “apenas pôs em discussão outros conceitos – conceitos humanos no lugar de divinos, o Estado no lugar da Igreja, a ‘ciência’ no lugar da fé /…/”resultam necessariamente estas leis”-, obtém sua independência do terreno religioso propriamente dito com o liberalismo. Representando a última conseqüência do cristianismo, o liberalismo, dando continuidade ao “velho desprezo cristão pelo Eu”, tendo como finalidade realizar o homem verdadeiro.

image_pdfScaricare PDFimage_printStampare testo
(Visited 37 times, 1 visits today)