O CORPO E O SER-PRÓPRIO

DESSACRALIZAÇÃO

A narrativa de um desenvolvimento individual mostrou que é na preservação e na fruição do corpo em relação aos desafios do mundo que se radica o movimento que vai dar origem ao espírito: com este o mundo “cai em descrédito” e nos encontramos a nós mesmos em nossa indiferença em relação a ele. Todavia, se por um lado conquistamos através dessa estratégia uma profunda auto-afirmação, por outro lado nos perdemos daquilo que representa o sentido mesmo dessa conquista: a corporeidade, à qual, no menino, sempre está unida o que Stirner chama de “sentido apurado”.

Afundamonos em investigações ociosas, martirizamos nossas pulsões no pelourinho de nobres princípios, perdemos nosso corpo, pois nos tornamos espectros. E, como cabe a uma boa paródia da dialética hegeliana o corpo só poderia ser recuperado através da negação daquilo que o negou: o Espírito. Contudo, a corporeidade recuperada do Único difere daquela da criança ou a dos antigos, “não se trata de voltar à carne primitiva, mas à carne pós-histórica.”
No indivíduo adulto e egoísta a corporeidade encontra-se enriquecida pelas experiências e possibilidades do reino do espírito, agora compreendido como corpo-próprio, individuado e não objetivável, bem como o sentido apurado dos antigos tornou-se o soberano sentimento de si. Com a mudança da identidade humana proposta por Stirner, a fruição substitui o dever, mas esta também se alarga para além dos limites do gozo hedonista sem constituir-se, portanto, como um impedimento para qualquer ação específica, desde que sustentada apenas em referência a cada um e fora da lógica da “prescrição”, “do mandamento”.
A noção de Corpo em Stirner está indissociavelmente ligada a de ser-próprio. Na própria assimilação dos nutrientes advindos da alimentação e no inevitável desgaste orgânico inerente a esse processo, reflete-se a função ao mesmo tempo negadora e constitutiva em que temos uma imagem do movimento do ser-próprio. O corpo rebelase, opõe-se, e mesmo submetendo-se ao poder do chicote da realidade, não deixa por isso de ser o meu corpo.

“O fato de eu suspirar e tremer mostra que ainda não perdi a mim mesmo, que sou o meu proprietário” (UP, p.129). O corpo não venera àquilo que a ele apresenta-se como doloroso; pelo contrário, procura livrar-se das pancadas e se não o faz é para evitar um mau maior: é em seu próprio beneficio. O pensamento, ao contrário, costuma considerar certas constrições como sagradas, certos princípios como intocáveis e por isso se submete a eles “com satisfação”…

Mesmo que o corpo padeça.
Com essa submissão o crente pode considerar-se mais livre como um ser humano racional que não é escravo, por exemplo, dos pecados da carne. Do ponto de vista do egoísta, todavia, meu corpo, é sempre meu se me sujeito é por interesse. , “Como não me perco de vista, nem a mim nem ao meu interesse, não deixo passar a próxima boa oportunidade para pisar o senhor de escravos”. A satisfação ou insatisfação do corpo é sempre sincera e clara e se ele almeja liberar-se das injunções do mundo, é apenas para obter com isso algum prazer específico, algum bem estar concreto e absolutamente egoísta e não algum tipo abstrato de liberdade. “Entre a Liberdade (Freiheit) e o Ser Próprio (Eigenheit) existe ainda um abismo mais fundo do que a mera diferença das palavras”.
É exatamente na realização de metas concretas e pontuais que repousa o motivo da busca da auto realização humana, que a noção de Ser- Próprio procura representar. Ao tentar ultrapassar os limites colocados pelo mundo o corpo visa exatamente esse tipo de autorealização. Constituindo-se portanto como uma das manifestações, ou melhor, das figurações do Ser-próprio, na narrativa stirneriana.

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A filosofia de Max Stirner não se propõe a oferecer um novo parâmetro a partir do qual determinados valores ou comportamentos possam ser avaliados. Tampouco se trata de aceitar o desregramento dos sentidos como norma de conduta. Se algo é ou não problemático para a existência do ser humano, é o indivíduo particular quem deve verificar a partir da relação entre o seu Ser Próprio e o aspecto Sagrado do objeto. Da mesma maneira cada indivíduo vai encontrar-se vinculado em algum momento com alguma forma de autorealização, o que implica a adoção de um padrão, ainda que temporário, de conduta (Ser Próprio). É a fixação em um modo específico de satisfação por motivos que não sejam a própria satisfação (Sagrado) que Stirner condena, e nesse sentido santos e não-santos se equiparam: “Estes se afundam pouco a pouco em uma renúncia que leva a mais funda vulgaridade e baixeza, aqueles se elevam a mais ignominiosa das sublimidades”Ao contrário de muitas concepções religiosas e filosóficas, a noção de corpo em Stirner não está vinculada a um automatismo cego nem à escravidão dos sentidos. A identificação com o corpo nos faz indivíduos naturalmente “livres”, “nascidos livres”, e que entregam essa “liberdade” sem receios visando à satisfação; para depois reassimilá-la novamente à totalidade de nosso eu.

Sob a influência do cristianismo e do platonismo, chegamos ao ponto de duvidar dos impulsos do corpo talvez por acreditar que na ausência de algum tipo de coerção externa esses impulsos levariam necessariamente à autodestruição: “O objetivo do cristianismo foi o de nos libertar da nossa determinação natural O moralismo cristão, no entender de Stirner, produz a “imoralidade” de duvidar dos impulsos do corpo.
Segundo a doutrina cristã podemos ter desejos, mas os desejos não devem se tornar fixos e insolúveis, eles devem ser submetidos ao crivo da razão antes de ser satisfeitos. Pois bem, conclui o filósofo, “aquilo que o cristianismo (a religião) tramou contra os desejos, não poderemos nós aplicá-lo ao seu próprio preceito segundo o qual é o espírito (pensamento, representações, idéias, fé, etc.) que nos deve determinar?
Se fizermos assim, através do corpo alcançamos a dissolução do espírito, transformandoo em uma simples pulsão da vontade. Essa transformação, contudo, não se efetiva em função de um raciocínio, uma razão ou uma descoberta; se fosse assim seria apenas mais um movimento dentro do pensamento Sagrado. Apenas uma rebelião (Empörung) do corpo pode levar ao fim da opressão do espírito sem perpetuá-la em uma nova forma.
A rebelião parte da insatisfação do homem consigo mesmo quando este se vê mutilado em suas possibilidades de gozo. Mas essa rebelião não pretende suprimir o pensamento e substituí-lo pelo império hedonista dos sentidos. Ao contrário, ela pretende pôr fim a todo império instaurando em seu lugar apenas o processo inacabado da vida. Assim, o pensamento se converteria de senhor em mero artefato que visa nossa fruição e nós nos tornaríamos homens que “tem interesses que se prendem ao corpo, pessoais, egoístas”

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A obra de Stirner foi desenvolvida no sentido de dar uma resposta às polêmicas que surgiram em decorrência de certos aspectos da filosofia hegeliana. A escolha de suas expressões, o modo de articulação de seu discurso, sua retórica, visa o enfrentamento de uma dada tendência, que ele considera nociva, de seu tempo. Ele procura forçar uma mudança de perspectiva descrevendo negativamente as tendências racionalistas e moralizantes de sua época. Daí a ênfase nas sensações e no corpo. Mas, como observamos acima, Stirner esquiva-se de oferecer qualquer tipo de positividade como parâmetro para substituir aqueles que condena. Sob o seu enfoque, a demanda por suprassunção hegeliana é substituída pela elegia do indivíduo como “ser possessivo”, “fruidor”, e no reconhecimento e aceitação do corpo bem como do pensamento como dois modos distintos de obter gratificação e de auto criar-se. Esse seria um desaguadouro histórico das tateantes buscas por autorealização: a instauração de uma cultura voltada para o apreço à diferença em um mundo dessacralizado, pós-metafísico, onde os indivíduos opõem-se ou convergem em suas escolhas sem a mediação de princípios, valores e padrões que não sejam eles mesmos. Um mundo onde ninguém pode reivindicar para si mesmo o título de modelo paradigmático para outros homens.
Para cumprir esse programa, contudo, é preciso promover uma reconsideração não somente de nossa auto-imagem, mas também do modo como nos relacionamos com certas palavras e com a linguagem. Stirner parece acreditar que a tradição cristã bem como a Modernidade teriam imprimido uma marca deveras nociva a certas palavras referentes aos aspectos individuais/corpóreos da existência bem como ao modo de nos relacionarmos com a linguagem; por isso ele também oferece uma alternativa dessacralizada a esta relação. O próximo capítulo aborda essa alternativa.

 

 

 

 

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