O MISTÉRIO DA CONSTRUÇÃO STIRNERIANA

NEGAÇÃO DO INDIVÍDUO

 

 

 

 

 

 

A partir da posição marxiana, Stirner opera uma destituição ontológica tanto do mundo quanto do homem, na medida em que os destitui de sua objetividade.

Reproduzindo a natureza geral do procedimento especulativo, Stirner, através de esquemas e truques lógicos, traça “um plano judicioso, estabelecido por toda eternidade, /…/ afim de que o Único possa vir ao mundo no tempo previsto”.

 

O momento inicial deste plano consiste, primeiramente, em isolar e autonomizar o Eu, determinando tudo o que não se reduz a ele como o não-Eu, como o que lhe é estranho. Em seguida, a relação do Eu com o não-Eu é transformada em uma relação de estranhamento, o qual ganha sua expressão final na transformação de tudo que existe independentemente do Eu em algo sagrado, isto é, “na alienação (Entfremdung) do Eu em relação a alguma coisa qualquer tomada como sagrado”.

 

Após reduzir a realidade e os indivíduos a uma abstração, inicia-se o segundo momento do plano traçado por Stirner, ou seja, chega-se à fase da apropriação, pelo indivíduo, de tudo que anteriormente foi posto como estranho a ele. Chamando a atenção para o caráter ilusório desta apropriação “que, sem dúvida, não se encontra nos economistas”, Marx aponta que ela consiste, pura e simplesmente, na renúncia à representação do sagrado, a partir da qual o indivíduo assenhora-se do mundo, tornando-o sua qualidade ou propriedade.

Em verdade, aceitando “com candura as ilusões da filosofia especulativa, que toma a expressão ideológica especulativa da realidade como a própria realidade, separada de sua base empírica”, Stirner “critica as condições reais fazendo delas ‘o sagrado’ e as combate batendo-se contra a representação sagrada que há nelas”.

 Isto porque supõe “que não há relações a não ser com os pensamentos e com as representações”. Logo, “ao invés de tomar por tarefa descrever os indivíduos reais com seu estranhamento (Entfremdung) real e as condições empíricas deste estranhamento (Entfremdung)”, transforma “os conflitos práticos, ou seja, conflitos dos indivíduos com suas condições práticas de vida, em conflitos ideais, isto é, em conflitos destes indivíduos com as idéias que eles fazem ou põem na cabeça”.

De modo que, para Stirner “não se trata mais de suprimir (aufheben) praticamente o conflito prático, mas simplesmente renunciar à idéia de conflito, renúncia à qual, como bom moralista que é, ele convida os indivíduos de maneira premente”.

No entanto, diz Marx, apesar dos “diversos truques lógicos que São Sancho utiliza para canonizar e, precisamente por esse meio, criticar e devorar o mundo existente”, ele “apenas devora o sagrado, sem tocar em nada propriamente do mundo. Portanto, naturalmente, sua conduta prática só pode ser conservadora.

 

Se ele quisesse realmente criticar, a crítica profana começaria justamente lá onde cai a pretendida auréola sagrada”.

Marx rechaça, pois, a redução stirneriana da realidade à subjetividade e o conseqüente descarte da objetividade, bem como a redução de todo processo objetivo e toda relação objetiva, que determinam objetivamente a subjetividade, a uma representação. Ademais, critica o fato de Stirner, da mesma forma que prescinde de determinar o fundamento concreto da existência dos homens, de seu mundo e de suas representações, prescindir igualmente de determinar o fundamento concreto da alienação, abstraindo a alienação efetiva ao converter os estranhamentos reais em falsas representações.

De modo que o núcleo da refutação marxiana se deve ao reconhecimento, por Stirner, da realidade pura e simples das idéias, motivo pelo qual aborda o real a partir de representações, supostas, por sua vez, como produtos de uma consciência incondicionada. Tal reconhecimento ressalta, para Marx, o caráter acrítico do pensamento stirneriano, dado que lhe permite abster-se de indagar sobre a origem das representações, limitando sua superação à transformação da consciência, no sentido de que mudando-se as idéias, muda-se a realidade. Aplica-se, portanto, a Stirner a observação que Marx faz a respeito de Hegel: “a superação da alienação é identificada com a superação da objetividade” e a “superação do objeto representado, do objeto como objeto da consciência, é identificada com a superação objetiva real, com a ação sensível distinta do pensamento, com a praxis e com a atividade real”.

 

Quanto ao indivíduo stirneriano, Marx aponta que ele não corresponde a nenhum indivíduo real, pois não é “ ‘corporal’, nascido da carne de um homem e de uma mulher, [mas] é um ‘Eu’ engendrado por duas categorias, ‘idealismo’ e ‘realismo’, cuja existência é puramente especulativa”.

 

Abordando a vida somente numa perspectiva ideológica, Stirner reduz o indivíduo à consciência, limita sua atividade à produção de representações e identifica o desenvolvimento individual ao que atribui ser o desenvolvimento da consciência, tomada como algo absolutamente incondicionado, que entretém relação apenas consigo mesma.

 

Para Marx, já mostramos, o indivíduo é objetivamente ativo e a consciência se desenvolve na relação objetiva que os indivíduos entretêm com o que lhes é exterior – o mundo e os outros homens -, de modo que seu desenvolvimento está diretamente ligado àquele das condições de existência. Outrossim, isolando e singularizando o desenvolvimento dos indivíduos e “Não levando em consideração a vida física e social, não falando jamais da ‘vida’ em geral, São Max, conseqüente consigo mesmo, abstrai as épocas históricas, a nacionalidade, a classe, etc. /…/”, vale dizer, abstrai as particularidades que medeiam o processo de desenvolvimento das individualidades.

Em relação à história, também abordada sob uma perspectiva ideológico-especulativa, Marx observa que Stirner, apresentando uma mera variante da lógica que orienta o desenvolvimento individual, ao abstrair as transformações objetivas que determinam o desenvolvimento histórico, oferece um claro exemplo da concepção alemã da filosofia da história, na qual “a idéia especulativa, a representação abstrata, torna-se o motor da história, de modo que a história é reduzida à história da filosofia.

 

Novamente seu desenvolvimento não é concebido conforme as fontes existentes e tampouco como o resultado da ação das relações históricas reais, mas apenas segundo a concepção exposta pelos filósofos alemães modernos, particularmente Hegel e Feuerbach. E mesmo destas exposições não se retém senão os elementos úteis para o fim proposto e que a tradição fornece a nosso santo. Assim, a história se reduz a uma história das idéias, tais quais são imaginadas, a uma história de espíritos e de fantasmas e só se explora a história real e empírica, fundamento desta história de fantasmas, para que ela lhes forneça um corpo”.

Omitindo completamente a base real da história, excluindo da história a relação dos homens com a natureza, Stirner compartilha da ilusão de cada época histórica, transformando a representação que “homens determinados fizeram de sua praxis real /…/ na única força determinante e ativa que domina e determina a praxis desses homens. /…/ De modo mais consistente, ao sagrado Max Stirner, que nada sabe da história real, o curso da história aparece como um simples conto de ‘cavaleiros’, bandidos e fantasmas, de cujas visões sóconsegue naturalmente se salvar pela ‘dessacralização’”, o que não significa desfazer-se das representações sobre o real a partir da delucidação do real como algo em si, mas em negar, pura e simplesmente, o caráter sagrado atribuído às representações. De modo que, devido à absoluta desconsideração pela realidade, Stirner é para Marx o mais especulativo dos filósofos especulativos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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