O OLHAR COMO VIA DE ACESSO PARA O OUTRO

EGOALTER

 

 

 

 

 

Para reconhecer a existência do Outro enquanto outro, sem sair do plano imanente do Cogito é necessário lembrar que não é possível abarcar esse aspecto pela via cognitiva. Não podemos afirmar em momento nenhum que temos consciência de uma existência alheia, pois só podemos ter certeza intencional da nossa.


O que é que nos separa do Outro para reconhecê-lo como diferente realmente de nós mesmos? Se tal presença se me apresenta sem intermediários nem representações, como posso experimentá-lo como sujeito consciente que não sou eu? Na verdade, para Sartre: “O outro é esse eu-mesmo do qual nada me separa, absolutamente nada, exceto sua pura e total liberdade, ou seja, esta indeterminação de si-mesmo que somente ele tem-de-ser para e por si.”.
Assim, o Outro é experimentado com evidência fenomenológica enquanto diferente em virtude unicamente da sua própria liberdade, que é diferente da minha. Mais adiante, veremos que, para Sartre, é só pelo critério da essência livre e dinâmica do ser humano que se pode vencer o solipsismo com base em sólidos pressupostos metafísicos. Convém lembrar que, para Sartre, a metafísica questiona justamente o que diz relação à existência do Outro, isto é, busca explicar a insuficiência do solipsismo.
O bom senso sempre se opôs às argumentações solipsistas. Mas agora Sartre sente que sabe o bastante para vencer estas resistências e explicar por que o solipsismo é uma posição absurda e impossível. Assim expressa dita intenção:

Tais resistências, com efeito, baseiam-se no fato de que o outro me aparece como presença concreta e evidente, que de modo algum posso derivar de mim mesmo e de modo algum pode ser posta em dúvida nem tornar-se objeto de uma redução fenomenológica ou qualquer outra “εποχη”.

É importante consignar que o Olhar não é uma espécie de síntese hegeliana entre Eu e o Outro, que seriam respectivamente a tese e a antítese. Sartre não adota essa concepção dialética, na qual existem dois pólos dados ou postos. Somente um dos pólos pode estar dado e é o objeto. Se ambos fossem “teses”, então ambos seriam objetos e isso seria impossível na dinâmica do Olhar em Sartre. Só é possível que eu seja um sujeito “não-posto” ou pré-reflexivo (ser-Para-si) e, então, necessariamente, as coisas que aparecerem na minha consciência poderão se tornar objetivas ou téticas: seres-Em-si. Por outro lado, a minha dimensão de ser-Para-outro me torna necessariamente um objeto perante a vista do Outro, que surge como sujeito “não-posto” ou não tético. Num interessante parágrafo de O ser e o Nada se lê:

Com efeito: se me olham, tenho consciência de ser objeto. Mas esta consciência só pode produzir-se na e pela existência do outro. Quanto a isso, Hegel tinha razão. Só que esta outra consciência e esta outra liberdade nunca me são dadas, posto que, se o fossem, seriam conhecidas, logo, objetos, e eu deixaria de ser objeto. Tampouco posso extrair de meu próprio fundo o conceito ou representação delas. Em primeiro lugar, porque não as “concebo” nem as “represento”: tais expressões nos remeteriam outra vez ao “conhecer”, que, por princípio, não se leva em consideração. (SN, p. 348-349).

Outro aspecto que o autor explica para entender o Olhar como via de acesso ao Outro é não poder submeter essa experiência à εποχη fenomenológica de Husserl. Esta, como Sartre diz, “tem por finalidade colocar o mundo entre parênteses para descobrir a consciência transcendental em sua realidade absoluta.” (SN, p. 350). No caso em questão, o Outro não forma parte do mundo, pois está além da minha consciência, único espaço onde pode ele pode ser percebido. A respeito da vergonha de mim frente ao Outro, por exemplo, Husserl diria que se deve deixar fora de consideração o objeto da vergonha para melhor destacar a própria vergonha, em sua absoluta subjetividade. Porém, o Outro não é o objeto da minha vergonha, mas o meu ato ou minha situação no mundo. Somente estes, a rigor, poderiam ser reduzidos.
O Outro não é nem sequer a causa ou condição da minha vergonha, senão algo muito mais profundo: o próprio ser desta. Diz Sartre que “a vergonha é revelação do outro” (SN, p. 350). Embora seja possível uma consciência pura da vergonha, a presença do Outro infestaria enquanto presença inapreensível e, por isso, escaparia a toda redução. O Outro por tanto é revelado pelo Olhar, na forma da vergonha, orgulho, medo, etc., mas tal via não deve ser relacionada ao mundo, mas à consciência. Ela, captada pelo Cogito, presta testemunho indubitável de si mesmo, de sua própria existência e da existência do Outro.

 

 

 

 

 

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