O PROBLEMA DO NADA

NADA

 

 

 

 

Sartre percebe que o problema que enfrenta é semelhante ao de Descartes, que se perguntava pela relação da alma com o corpo, como se fossem duas regiões diferentes do ser. Na verdade, tanto a consciência como o fenômeno, enquanto ser-Em-si, tomados em forma isolada, são incapazes de existir isoladamente.

 

É necessário concebê-los numa síntese dinâmica, onde ambos os pólos são os momentos opostos de uma totalidade. Isso se dá no plano do ser do homem e não do conhecimento, como ressaltou Heidegger. Assim o expressa Sartre: “É o homem no mundo, com essa união específica do homem com o mundo que Heidegger, por exemplo, chama ‘ser-no-mundo’.” (SN, p. 43).

 

Quando o homem se pergunta pelo sentido do ser, só cabe uma resposta: “O ser é isso, e, fora disso, nada”. (SN, p. 46) Assim, vem à tona um novo componente do real: o não ser. O problema se complica, pois agora se deve explicar não só a relação da consciência com o ser-Em-si, mas também com o não-ser. Ele tem uma certa forma de existir, pois de outra forma seria impossível dizer não. É claro que o Nada absoluto e abstrato não existe, mas há uma presença perpétua em nós e fora de nós de um certo Nada relativo que infesta todo o ser.

Por exemplo, se um cientista espera comprovar uma teoria a través de um experimento e se dá conta que não existe o que ele pensava, se produz uma brusca descoberta intuitiva desse não-ser, que é um fato real; ou mais simples ainda, se entro a um bar e espero encontrar Pedro, a sua ausência é um não-ser relativo que abarca todo o ambiente do bar (Cf. SN, p. SN, p. 52). Fica pendente, portanto, responder qual é a relação entre o homem e o Nada.

Mas, em primeiro lugar devemos elucidar melhor o conceito de Nada que trabalha Sartre. Não se trata da idéia hegeliana, onde o Ser e o Nada “são abstrações vazias e cada uma é tão vazia quanto a outra” (SN, p. 57). Para Sartre, o vazio sempre é vazio de alguma coisa e não se pode reduzir a uma noção do conhecimento o que é realmente o ser e o não-ser. Ambos pertencem ao âmbito darealidade existente e não cabe a identificação idealista entre ser e pensamento. Em uma frase, Sartre replica dizendo que “é preciso recordar aqui, contra Hegel, que o ser é e que o nada não é.” (SN, p. 57).

O Nada, então, é logicamente posterior ao ser e não pode opor-se a ele numa contemporaneidade lógica. Isso acontece “porque a qualidade irredutível do não vem acrescentar-se a essa massa indiferenciada de ser para liberá-la.” (SN, p. 57). Em um interessante parágrafo, Sartre manifesta a sua noção relacional do não-ser, dizendo que ele se verifica apenas na superfície do ser, como se fosse seu limite. Quase poderíamos dizer que não seria certo chamar essa concepção de nada como antítese do ser, mas como peritese. Sartre explana assim:

 

Significa que o ser não tem qualquer necessidade do nada para se conceber, e que se pode examinar sua noção exaustivamente sem deparar com o menor vestígio do nada. Mas, ao contrário, o nada, que não é, só pode ter existência emprestada: é do ser que tira seu ser; seu nada de ser só se acha nos limites do ser, e a total desaparição do ser não constituiria o advento do reino do não-ser, mas, ao oposto, o concomitante desvanecimento do nada: não há não-ser salvo na superfície do ser.

 

Sartre admite que, a partir de outra perspectiva, se pode conceber o ser e o nada como existindo simultaneamente, no sentido de serem forças recíprocas que se repelem mutuamente, fundamentando assim a realidade como resultado dessas forças antagônicas. Inspirado, mais uma vez, em Heidegger, o nosso autor percebe o progresso que a sua teoria do Nada representa em relação a Hegel. Em primeiro lugar, ser e não-ser já não são mais abstrações vazias. Assim ele diz:

 

Em sua obra principal, Heidegger mostrou a legitimidade da interrogação sobre o ser: este já não tem esse caráter de universal escolástico que ainda conservava em Hegel; há um sentido do ser que precisamos elucidar; há uma ‘compreensão pré-ontológica’ do ser, envolvida em cada conduta da ‘realidade humana’, ou seja, cada um de seus projetos.

 

O homem (Dasein) se depara com o mundo que está suspenso no Nada e que a sua própria realidade emerge no não-ser. Diante de tanta contingência, formular-se-á a pergunta “Por que há o ente, e não antes o nada?”. O sentimento que corresponde a essa tomada de consciência é a angústia. Porém, Sartre não concorda com a visão do Nada como meio infinito onde o ser esteja em suspenso.

 

 

Ele afirma: “É preciso que o Nada seja dado no miolo do Ser.” (SN, p. 64) Mas esse Nada intramundano não pode ser produzido pelo ser-Em-si; tampouco pode ser concebido fora do ser ou a partir dele; por outro lado, sendo não-ser, não pode tirar de si a força necessária para “nadificar-se”. Então, surge o grande problema que nos ocupa neste ponto: de onde vem o Nada?

Sartre concebe, então, um ser pelo qual o Nada vem ao mundo, mas no qual está em questão o Nada de seu ser: o ser pelo qual o Nada vem ao mundo deve ser seu próprio Nada. Qual é a estranha e delicada região do ser que é seu próprio Nada? Já foi dito que o ser não pode gerar o Nada, pois, se pudesse fazer alguma atividade, apenas daria origem ao ser. Deve-se encontrar alguma realidade que seja capaz de olhar o ser como sendo um conjunto, colocando-se fora dele e interrogando-o.

Essa realidade só pode ser a humana: o homem é o ser pelo qual o Nada vem ao mundo. Como o ponto de partida da filosofia é, para Sartre, o Cogito pré-reflexivo, importa agora considerar a realidade humana na sua dimensão de consciência enquanto adquire uma experiência primária do ser, antes de toda reflexão. Nesse sentido, surgem as estruturas imediatas do Para-si.

 

 

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