PENSAMENTO ABISSAL

PENSAMENTO ABISSAL

 

 

 

 

 

 

 

Na edição dos fragme ntos póstumos vemos surgir, pouco tempo depois, uma primeira anotação sobre o amor fati (amor ao destino). Assim, por volta do outono o filósofo escreve que é preciso, em primeiro lugar, “‘Amar o que é necessário’ – amor fati”, e sentencia, desejando: “seja esta a minhamoral”.Tanto o pensamento do eterno retorno quanto a concepção de amor fati ganham lugar estratégico na obra publicada no ano seguinte.

 

Na época em que Nietzsche teve o pensamento do eterno retorno ele trabalhava em cinco livros que, reunidos, formariam a segunda parte de Aurora. Tal pensamento, todavia, o leva a modificar esse plano. Nomeando sua nova obra como A gaia ciência, o filósofo dedica os três primeiros livros que a compõem para “o encerramento da problemática da moral, por ele empreendida em Aurora”.

 

Sendo assim ainda mantém os três primeiros livros de A gaia ciência tematicamente vinculados a Aurora, e confere um caráter inteiramente outro ao quarto livro. É nele que, em sua penúltima seção, o filósofo irá trazer pela primeira vez o pensamento do eterno retorno sob o título “o mais pesado dos pesos”. Todavia, bem antes disso, já logo na abertura desse quarto livro, ele escreve sob o título “Para o ano novo”:

 

Amor fati: seja este, doravante, o meu amor! Não quero fazer

guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem

mesmo acusar os acusadores. Que a minha única negação seja

desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum

dia, apenas alguém que diz Sim!

 

Logo de início é importante observar que este parágrafo ocupa uma posição sugestiva: está curiosamente localizado entre o anúncio da constatação da “morte de Deus” (que lhe precede no livro III, nas seções 108 e 125) e o desafio do eterno retorno (que lhe segue no livro IV, seção 341). Em seu pedido para “o ano novo”, Nietzsche almeja “algum dia” ser talhado pelo amor fati. Ele quer ser “algum dia, apenas alguém que diz Sim!”.

 

Aquilo que significa o amor fati encontra-se em Ecce homo, obra de 1888. Ali Nietzsche dirá, afinal, o que entende por essa expressão:

 

Minha fórmula para a grandeza no homem é amor fati: nada querer diferente, seja para trás, seja para frente, seja em toda a eternidade. Não apenas suportar o necessário, menos ainda ocultá -lo (…) mas amá-lo…”

 

O esclarecimento acerca do amor fati em 1888 permite compreender que ele possui uma relação intrínseca com o pensamento do eterno retorno. A questão que colocamos portanto é: há algo no eterno retorno que faça com que Nietzsche, em 1882, não esteja ainda de posse do amor fati? Que obstáculo há no eterno retorno que leva Nietzsche a postergar a posse do amor fati na medida em que diz que ele quer “ser, algum dia, apenas alguém que diz Sim!”? A nosso ver existe um elemento envolto no eterno retorno que, por um lado, dificulta uma afirmação incondicional do mesmo e, por outro, inicialmente impossibilitará a tarefa de transvaloração.

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Nos póstumos compreendidos entre o verão de 1882 e a primavera de 1884, Nietzsche nomeia o elemento oculto envolto no eterno retorno, o qual, a nosso ver, é aquele que impede à plena adesão ao amor fati. Numa de suas anotações ele escreve: “O pen-samento mais terrível: aquele do eterno retorno da inutilidade (Vergeudung)”. 6 Este “pensamento terrível” irá tomar a forma do “pensamento abissal ” na obra Assim falava Zaratustra.

 

 

Se o móvel de Zaratustra é o pensamento do eterno retorno, o que Nietzsche pretende com sua personagem não é somente anunciar através dela tal pensamento, mas submetê-la ao “pensamento abissal ”. Tanto é assim que, na época de conclusão da terce ira parte de Assim falava Zaratustra, lugar no qual a personagem enfrentará o “pensamento abissal”, o filósofo escreve em suas anotações:

 

“Zaratustra anuncia a doutrina do retorno – que é agora suportável, por ele próprio pela primeira vez!”O “declínio” de Zaratrustra, anunciado no final do último parágrafo do quarto livro da Gaia ciência, consiste, portanto, em enfrentar e superar o “pensamento abissal” contido no pensamento do eterno retorno.

Ora, buscar a afirmação da vontade diante do mais problemático da existência requer um ato maior da coragem para poder incorporar o eterno retorno do mesmo. Por essa razão, na terceira parte de Assim falava Zaratustra, muito antes que sua personagem possa vir a ter clareza sobre o que é o “pensamento abissal”, que forma ele toma, como se materializa enquanto mais alto desafio, há um ode à coragem:

 

Há uma coisa, em mim, à qual chamo coragem; e ela, até agora, sempre matou em mim todo desânimo (…)

A coragem mata, também, a vertigem ante os abismos; e onde o homem não estaria ante abismos? O próprio ver – não é ver abismos?

A coragem é o melhor matador: a coragem mata, ainda, a compaixão. Mas a compaixão é o abismo mais profundo:quando mais fundo olha o homem dentro da vida, tanto mais fundo olha, também, dentro do sofrimento. Mas a coragem é o melhor matador, a coragem que acomete; mata, ainda, a morte, porque diz: “Era isso, a vida? Pois muito bem! Outra vez!”

 

 

Esta ode à coragem que Zaratustra faz se encontra num ponto decisivo do livro, a saber: no capítulo onde ele narra “a visão do ser mais solitário”, o “enigma” que se apresentou diante dele na,forma de uma visão. Trata-se do encontro com aquele que Zaratustra considera o “espírito de peso” (dem Geiste der Schwere), o seu “demônio e mortal inimigo (meinem Teufel und Erzfeinde)”. Em que momento ocorre esse encontro? Durante um “lívido crepúsculo”. Se levamos em consideração que na seção 108 de A gaia ciência a “morte de Deus” projeta uma sombra que necessita ser vencida,então esse crepúsculo no qual Zaratustra encontra com o “espírito de peso” é bastante significativo. Zaratustra conta que com muita dificuldade subia por uma senda árida, em meio a pedras. Queria subir, mesmo com toda a dificuldade, “a despeito do espírito que o puxava para baixo, para o abismo” [grifo nosso].

 

E quando o “peso” do anão tornou-se insuportável, Zaratustra evocou sua própria coragem e lhe disse: Alto lá, anão! (…) ou eu ou tu! Mas eu sou o mais forte dos dois: tu não conheces o meu pensamento abissal! Esse – não poderias suportá-lo!

 

 

E, na seqüência, Zaratustra observa: “Então, aconteceu algo que me aliviou: porque o anão pulou das minhas costas ao solo, esse curioso! E foi encarapitar-se numa pedra à minha frente. Mas tínhamos parado, justamente, diante de um portal”. A expressão “pensamento abissal” provoca, portanto, uma reação: o “espírito de peso”, que pesava nos ombros de Zaratustra e o puxava para o abismo se afasta, colocando-se à sua frente; esse afastamento faz com que Zaratustra sinta-se aliviado. Mas Zaratustra comunica ao “anão seu “pensamento abissal”? Não.

 

Atentando para o texto vemos que, na verdade, Zaratustra não chega a comunicar ao “anão” tal pensamento, mas sim (e aqui Nietzsche se vale de um recurso muito semelhante ao que empregara no parágrafo 341 de A gaia ciência) faz o “anão” confrontar-se com a possibilidade cosmológica do eterno retorno. Isto demonstra que Zaratustra já está de posse ou conhece o pensamento do eterno retorno do mesmo – o que reforça nossa idéia de que este não se confunde com o “pensamento abissal ”, o aspecto sombrio incluído no pensamento do eterno retorno. Apresentar o pensamento do eterno retorno em sua versão cosmológica não é, ainda, falar do “pensamento abissal”. Tanto é assim que Zaratustra, após fazer o “espirito de peso” confrontar-se com tal concepção cosmológica, diz: “Assim falei e cada vez mais baixinho: porque tinha medo dos meus próprios pensamentos e do que eles ocultavam.”

 

Dois novos movimentos irão ocorrer a partir daqui. Primeiro: colocado diante da possibilidade cosmológica do eterno retorno o anão não a suporta e desaparece (assume um daqueles comportamentos presentes na seção 341 de A gaia ciência: não suporta o “mais pesado dos pesos”). Segundo: Zaratustra ainda contará que, ao ficar sozinho, viu “um jovem pastor contorcer-se, sufocado, convulso, com o rosto transtornado, pois uma negra e pesada cobrapendia da sua boca” e incitou o pastor a morder a cabeça da cobra e cuspi-la – o que o pastor acaba por fazer. Zaratustra não sabe o significado desta sua visão acerca do “espírito de peso” e o enigma que envolve o “pastor” e lança a questão aos seus ouvintes: “Quem é o pastor em cuja garganta a cobra assim se insinuou? Quem é o homem em cuja garganta se insinuará tudo o que há de mais negro e pesado?”

 

É somente no capítulo “O convalescente” que o enigma será esclarecido. E é também ali que saberemos, afinal, em que consiste o “pensamento abissal ”, pois é ali que Zaratustra o enfrentará. Podemos dizer, em síntese, que o “pensamento abissal” representa, pois, o “terrível pensamento”, o grande fastio incluído no pensamento do eterno retorno. Não é, portanto, ao acaso que Zaratustra repete duas vezes a frase “eternamente retorna o homem de que estás cansado, o pequeno homem”, e ainda no final afirma: “eterno retorno também do menor!”. É preciso dizer, a essa altura, que na filosofia nietzschiana o “pequeno homem”, que causa o grande fastio, materializa-se sob o conceito de niilismo.

 

De certa forma, quando Zaratustra profere seu Sim, sua afirmação diante do retorno do “pequeno homem”, ele aceita o necessário no retorno, profere o seu amor fati, sem querer nada diferente para frente ou para trás e pela eternidade, aceita, em última análise o retorno daquilo que considera inútil, sem sentido. Mas Zaratustra é ainda, no limite, uma personagem. Estará o filósofo, ao término de Zaratustra, de posse do amor fati? Aceitará ele o retorno eterno daquilo que ele fundamentalmente combate, a saber, o niilismo?

 

Quando Nietzsche quer combater a transvaloração judaicocristã de todos os valores com uma nova transvaloração ele se depara com um grave problema: se na doutrina do eterno retorno está contida a concepção de um movimento circular em que a mesma série de eventos volta sempre a ter lugar, que sentido há em combater os valores décadents? Não exploraremos isto em detalhes, mas éimportante observar que num fragmento póstumo do verão-outono de 1884, ao articular eterno retorno e niilismo, a transvaloração já se apresentava como a única via para suportar o problema oriundo da desvalorização dos valores.

 

Mas se Nietzsche entendia assim, por que, em Para além de bem e mal, a transvaloração é delega aos “filósofos do futuro”? Por que, em 1887, na Genealogia da moral, ele apenas anuncia o intento de realizar um “ensaio da transvaloração de todos os valores”?

 

Será somente no ano de 1888 que o filósofo irá assumir a transvaloração de todos os valores como uma tarefa de sua própria filosofia: somente no prólogo do Crepúsculo dos ídolos (1888) a transvaloração surge como uma “ocupação sombria”, uma ocupação “desmesuradamente cheia de responsabilidade”, ocupação cujo “primeiro livro” (àquela altura O anticristo) já estaria terminado.

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Encaminhando este texto para sua conclusão queremos observar o seguinte: desejar “ser algum dia” talhado pelo amor fati, tal como ele escreve no quarto livro de A gaia ciência; reservar, para os trechos finais de Assim falava Zaratustra, o embate de Zaratustra com o problema trazido pelo eterno retorno: o “pensamento abissal”; solucionar este problema através de uma personagem (Zaratustra); diagnosticar uma transvaloração ocorrida há dois milênios e delegar a tarefa de uma nova transvaloração aos filósofos do futuro; levar a transvaloração a cabo somente no ano de 1888: todos estes elementos encaminham a pensar que o amor fati encontrou, na doutrina do eterno retorno, o seu maior desafio. Afinal, que sentidohaveria em empunhar o estandarte da transvaloração e avançar, se eternamente a transvaloração judaico-cristã dos valores antigos necessitaria ser combatida? Devido a possibilidade de que tudo eternamente retornasse, qualquer tentativa de mudança dos valores decadentes não seria em vão? Que sentido haveria, pois, em realizar a tarefa de transvaloração se ela estaria condenada, como Sísifo, ao eterno recomeço?

 

Um aspecto, todavia, leva-nos a acreditar que Nietzsche, no último semestre de sua produção intelectual, tomou posse do amor fati, a saber: o empreendimento da transvaloração de todos os val ores, realizado por meio da obra O anticristo. É justamente após executar essa obra que o filósofo volta a falar do amor fati, e ao falar não o apresenta mais como um desejo de “algum dia” ser talhado por este amor, de “algum dia” ser “apenas alguém que diz Sim!”. EmmEcce homo é como um estandarte filosófico que Nietzsche a ele se refere. Em sua autobiografia intelectual é de forma incisiva que diz: “Amor fati é minha natureza mais íntima”.

 

Há sinais, portanto, de que o empreendimento da transvaloração de todos os valores somente foi possível devido ao anelo tardio com o amor fati – que encontrava na doutrina do eterno retorno o seu maior desafio. Se isto ocorreu, a filosofia trágica de Nietzsche

toma sua mais elevada forma e seu autor, coerente com o conjunto de suas idéias, pode dizer, com toda a propriedade (como diz em Ecce Homo): “(…) nada querer diferente, seja para trás, seja para a frente, seja em toda a eternidade. Não apenas suportar o necessário, menos ainda ocultá-lo (…) – mas amá-lo

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