REDUÇÃO INTERSUBJETIVA

SOLIP

Através da epoché fenomenológica, o ego se desvela como ego transcendental, atitude tal que coloca o eu numa relação intencional com as estruturas noético-noemáticas da consciência. Nesse sentido, “a epoqué irá delimitar, então, na subjetividade, o próprio, conhecimento – o transcendental – separando-o dos estados mundanos, da tese natural, das relações cotidianas, do mundo e dos outros”

Assim, “a redução transcendental me liga à corrente dos meus estados de consciência puros e às unidades constituídas por atualidades e potencialidades” (HUSSERL), fazendo com que todas as coisas adquiram sentido e se constituam na medida em que existem para um ego.
Ademais, a epoché fenomenológica coloca em suspenso não somente todas as coisas mundanas, mas o eu, pertencente a atitude natural, assim como o próprio outro. Mas é necessário nos perguntarmos: o que resta depois disto? Não fica vedado ao ego o acesso transcendental ao outro? Para tentar sair deste ciclo fechado, deste solipsismo que parece incomodar as bases da fenomenologia, enquanto ciência transcendental, Husserl, na V Meditação, desenvolve a explicitação fenomenológica do outro, do mundo e da intersubjetividade, pois vê que a egologia transcendental “depende da constituição de um mundo comum e da objetividade, as quais dependem da intersubjetividade”.

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O que está em questão para Husserl não é provar a existência ou inexistência dos outros, mas antes, descrever a possibilidade de conhecer a experiência que temos de um outro. “Outrem não é para a Fenomenologia, uma tese a demonstrar, como fora outrora para Descartes – é um sentido a descrever. E um sentido de uma experiência sempre ‘minha’, seja quem for que, aí, para si mesmo diga ‘eu’”. Conforme a fenomenologia husserliana, a experiência que temos de outro, pertencente a minha esfera primordial de ego transcendental, não é imediata, mas, através e somente pela intencionalidade da consciência posso conhecer o outro, conforme meus vividos.
Ainda que, como afirmam COELHO JUNIOR E FIGUEIREDO, no século XX tenha ocorrido uma primeira tentativa de superação das dicotomias sujeito-objeto, eu-outro, através da filosofia husserliana, ainda assim se mantém a prevalência do sujeito do conhecimento.

Parte-se do reconhecimento do “abismo” entre eu e outro, e busca-se uma superação do solipsismo. Mas, é preciso admitir, mantém-se a afirmativa (ao menos no primeiro Husserl), de que só posso conhecer o outro de forma mediada, ou seja, por meio da minha consciência, que já não é mais uma consciência em si, fechada em si mesma, mas sim uma consciência que é sempre consciência-de-algo, aberta ao mundo, aos outros – consciência intencional. Mas o Eu, e também a consciência, continuam a ter prevalência na tarefa de conhecimento, sobre o mundo, sobre outros eus.

 

Mesmo diante da problemática da constituição do outro e da possível queda em um solipsismo, Husserl não abandona o projeto de fundamentar toda a filosofia, como ciência rigorosa, embasado num único fundamento absoluto: o Ego Transcendental. Dessa maneira, a constituição do outro, assim como qualquer objeto ou mesmo do mundo, se dará em um ego transcendental, através de sua vida intencional. Conforme Husserl:

Todo o sentido que tenha e possa ter para mim qualquer ser, tanto pelo que faz a sua essência como pelo que faz sua existência real efetiva, é sentido na minha vida intencional, a partir de suas sínteses constitutivas, elucidando-se e descobrindo-se para mim nos sistemas de verificação concordante. Trata-se, pois, de criar, para os problemas desse gênero – na medida em que, em geral, podem ter sentido – […] nas quais a existência dos outros “constitui-se” para mim e explicitase em seu conteúdo justificado, ou seja, no conteúdo que “preenche” suas intenções.

Contudo, no que se refere ao outro, só posso conhecê-lo na medida em que tenho a experiência dele. Essa experiência, primeiramente começa com uma experiência real do outro, experiência que parte do encontro ‘físico’ com o outro, com o corpo do outro. Esta questão para Husserl tem um alcance muito maior, pois fornece ao mesmo tempo o fundamento para uma teoria transcendental do mundo objetivo (Cf. HUSSERL, 2001, p. 107).
O primeiro passo efetuado para esclarecer com o que a fenomenologia se ocupará para uma explicitação do outro é a epoché, uma nova redução, uma redução dentro da redução, que permita que esta experiência se evidencie de forma transcendental, como ‘intencionalidade intersubjetiva’, fazendo com que nessa experiência o eu e o outro não se confundam, mantendo o que é próprio de cada um. Sendo, portanto, uma redução que atinge a intencionalidade que constitui o outro, embora, através de mim.
Propondo uma redução intersubjetiva na esfera transcendental, Husserl quer evidenciar a constituição das subjetividades estranhas visando delimitar o objeto que se quer estudar.

A fim de não desviar o caminho, devemos, segundo as exigências de nosso método, proceder, no interior da esfera transcendental universal, a uma nova _____, tendo por meta delimitar o objeto de nossas pesquisas. Eliminamos do campo da pesquisa tudo aquilo que, agora, está em questão para nós, ou seja, fazemos abstração das funções constitutivas da intencionalidade que se liga direta ou indiretamente às subjetividades estranhas a ela, e delimitamos de início os conjuntos coerentes da intencionalidade – atual e potencial -, nos quais o ego se constitui no seu ser próprio e constitui as unidades sintéticas, inseparáveis entre si, que, em conseqüência, é preciso atribuir ao ser próprio do ego.

Dessa maneira, delimitado o ‘objeto de investigação’, através da redução, Husserl parte para a descrição da intersubjetividade, da experiência que o eu tem com o outro, ou como esse outro se apresenta para a consciência do ego. Este eu (pólo sempre idêntico e locus de toda a possível subjetividade) Husserl define como uma mônada – termo secularizado de
Leibniz – e que expressa a tentativa husserliana de alcançar aquilo que é mais próprio de um eu, aquilo que poderia ser caracterizado pela esfera da mesmidade e pode ser “tomado em sua plenitude concreta” (HUSSERL, 2001, p. 84). Vale considerar a discussão empreendida por Sokolowski na qual esclarece que a análise da mesmidade, da esfera mais própria do ego, não pode ser tomada como análise de um eu isolado no sentido de uma solidão factual; ao contrário, ela deve servir para explicitar a experiência em que, justamente, os contrastes entre o eu e o outro não se fazem presentes. No entanto, a análise precisa trazer à luz a compreensão da experiência do outro.
Aqui entra em jogo não apenas a possibilidade em tematizar o ego em sua estrutura transcendental, mas em fazer ver como este ego possui a experiência do coletivo, como a ele é permitido tratar, para além do si mesmo, em direção a uma efetiva comunicação com o seu oposto, tentando assim, através de uma aproximação das singularidades, (com)viver numa estrutura comunitária monádica.

 

 

 

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