SER-OBJETO NÃO PARA-MIM E SIM PARA-ELE

EGOALTER

No intuito de vencer o último obstáculo do solipsismo, Sartre coloca que a objetidade não pode projetar ou criar a alteridade. De fato, se eu sou objeto não o sou por mim e para mim. É o Outro que me constitui como objeto para ele mesmo. Por isso, o meu ser-objeto não serve de conceito regulador ou constitutivo para os conhecimentos que eu possa ter a meu respeito.

Como diz Sartre: “A presença do outro, portanto, não faz “aparecer” o eu-objeto: capto somente um escapar de mim rumo a…”. Se a linguagem me revela que o Outro me considera malvado ou ciumento, jamais terei uma intuição concreta da minha maldade ou do meu ciúme. Jamais serão mais que noções fugazes, cuja natureza mesmo será a de escapar-me. Conforme ele explica:

…não irei captar minha maldade, mas sim, a propósito de tal ou qual ato, irei escapar a mim, sentir minha alienação e meu fluir rumo a… um ser que só poderei pensar no vazio como malvado e, no entanto, sentirei ser, um ser que irei viver à distância, pela vergonha ou pelo medo.

Em outras palavras, o meu ser-objeto ou ser-Para-outro nada mais é que uma dimensão que eu não sou por mim mesmo e para mim mesmo. Trata-se de uma pura relacionalidade que me refere ao Outro, mas que eu sou. Aqui se trata de uma realidade que eu sou em-Outro e Para-outro. É muito difícil traduzir em conceitos tudo isso, porque justamente não é uma dimensão objetivável da consciência, mas bem o contrário: é uma experiência ou ação pela qual nos esvaziamos de nós mesmos, enquanto sujeitos, em direção ao Outro, que nos percebe como meras coisas no meio de um mundo que ele mesmo constitui existencialmente.
Por esse motivo, não é possível aceitar as objeções fantasmagóricas do solipsismo, que nos ilude fazendo acreditar que o Outro é uma criação intencional de nós mesmos. Isso seria possível apenas se tivéssemos uma intuição clara do que somos objetivamente em nós mesmos. O eu não pode ser posto pela própria consciência na subjetividade da nossa ação consciente. Por isso, não se pode construir ou constituir a existência do Outro a partir dessa noção de eu, que é puro ser-Em-si para a consciência reflexiva e cognitiva, representação fictícia e desleal do que somos realmente. A nossa objetidade pode ser captada só indiretamente, percebendo a evidência do Outro que me enxerga como coisa e me petrifica esvaziando-me da minha própria existência subjetiva. Diz Sartre:

Assim, meu eu-objeto não é conhecimento nem unidade de conhecimento, mas mal-estar, desprendimento vivido da unidade ek-stática do Para-si, limite que não posso alcançar e, todavia, sou. E o outro, através do qual esse eu me advém, não é conhecimento nem categoria, mas o fato da presença de uma liberdade estranha. Na verdade, meu desprendimento de mim e o surgimento da liberdade do outro constituem uma só coisa; só posso senti-los e vivê-los juntos; sequer posso tentar conceber um sem o outro.

A resposta que Sartre dá a essa última objeção do solipsismo consiste em evitar cair na tentação de aceitar a realidade só pela via cognitiva. Aqui se trata de uma relação com o Outro que não é pelo conhecimento, mas pelo fato vivido do mal-estar de se sentir objeto diante do Olhar alheio, do Outro que é o inferno para mim. Segundo ele: “através dele estou perpetuamente em perigo”. O mundo do Outro só pode ser pressentido por mim, mas surge originariamente comigo mesmo. O Para-si e o Para-outro são simultâneos na consciência. O Outro, portanto, é: “tão indubitável como minha própria consciência e com igual necessidade de fato.”.
Em síntese, em todo olhar há a aparição de um outro-objeto como presença concreta e provável em meu campo perceptivo, e, por ocasião de certas atitudes deste Outro, me determino a captar meu “ser-visto” pela vergonha, a angústia, etc. Este “ser-visto”, enquanto isto concreto e objetivo para mim, também é provável, mesmo que extraia seu sentido e natureza da certeza fundamental do Outro e da minha dimensão de ser-Para-outro.

 

 

 

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