SOBRE A INTERPRETAÇÃO DELEUZIANA DE NIETZSCHE:INTRA-EXTRATEXTUALIDADE

DELUZIANA

O texto nietzschiano comporta uma diversidade de possibilidadesem termos de interpretação, pois, ao invés de formular proposições ine-quívocas, cujo corolário seria evidente, apresenta-se como algo a serdecifrado. Mas o decifrar não implica, no caso, o estabelecimento deelementos precisos, mas de elementos possíveis. Com isso, o decifrarfica, aqui, como um exercício de experimentação em que cada elementoencontrado abre novas possibilidades de combinação no sentido de in-terpretação e, portanto, experimentação com o próprio pensar.

O seudiscurso requer a cumplicidade do leitor, não no sentido de rastreamentodo texto, mas de um andar com, de afinamento e, talvez, cumplicidadecomo condição de sua interpretação. Em  A genealogia da moral ,Nietzsche afirma: “Um aforismo bem construído não é ‘decifrado’ pelo simples fato de ser lido; é preciso, então, começar sua interpretação, oque demanda uma arte da interpretação” ( Prefácio § 8 ). Nãohá entre o ato de ler e o de interpretar uma decorrência necessária; paradecifrar aquilo que se lê exige-se uma arte, a arte da interpretação. Mas o que é a interpretação, o que é interpretar?

Nietzsche requercomo uma sua condição o ruminar, o deter-se demoradamente sobre umaforismo como condição de possibilidade de sua interpretação. Talvezse deva acrescentar condição necessária, mas não suficiente, pois nãohá medida precisa para a interpretação. O decifrar poderia passar tantopela cumplicidade, quanto pela imparcialidade.

Ora, se, de um lado, acumplicidade requer o abandono da imparcialidade, de outro, a própriaimparcialidade já se apresenta como elemento a ser interpretado. Nessesentido, o texto nietzschiano remete toda afirmação, produção, a umainterpretação. Com isso, lê-lo já é, também, interpretá-lo, mas a compre-ensão, quando não são fornecidos parâmetros de deduções aceitos comoevidentes na academia, requer, então, uma cumplicidade, entendida comoaceitação de um exercício do próprio pensar, que, ao invés de forneceruma conclusão definitiva, fornece uma diversidade de possíveis aindanão realizados, de interpretações, de pensamentos que afloram a partirda própria diversidade de perspectivas que uma idéia pode suscitar.Os textos de Nietzsche receberam interpretações diversas, que, emalguns casos, se excluem mutuamente.tatar que as possibilidades de experimentação com o pensamento nãofornecem respostas definitivas, o que, de um lado, justifica a diversida-de de compreensões de um mesmo texto e, de outro, fornece elementosprecisos para elevar toda afirmação ao estatuto de interpretação.Contudo, é necessário ter uma certa prudência para fixar um de-terminado estilo como sendo o nietzschiano e, mais ainda, um certocuidado para evitar veicular discursos e intenções próprias através doseu discurso.

É preciso ter presente que Nietzsche nunca pretendeuarregimentar seguidores ou mesmo tornar-se redentor de uma possívelágora extemporânea. A sua filosofia, de certo modo circunscrita na de-núncia das dicotomias subjacentes ao absoluto, implica umredimensionamento dos conteúdos semânticos da tradição, mas não re-quer sua inscrição como defensor de um outro conteúdo semântico. Issofica patente em muitos de seus textos, inclusive na sua autobiografia,escrita com o intuito de prevenir usos arbitrários de seu discurso.

Em Ecce homo  afirma: “‘Melhorar os homens’, eis a última coisa que euprometeria. Não sou eu quem levantaria jamais um novo ídolo. (…)   Der-rubar ídolos  (e por ídolos entendo todo ‘ideal’) esta é primeiramenteminha tarefa” (2).

Há que se observar nessa passa-gem uma recusa terminante de construção de um novo ideal, pois não setrata de substituir o conteúdo semântico da tradição por outro, mas defazer passar pela destruição de ideais a própria recusa peremptória deuma intenção possível de vir a erigi-los. E isso torna no mínimo proble-mático tanto direcionar a sua crítica a uma dada filosofia, quanto fazerdela um método de desconstrução de estruturas sociais – seja qual for opredicativo da estrutura – à disposição dos oprimidos ou de massas re-volucionárias. Não se quer aqui excluir o ataque direto de Nietzsche aalguns filósofos ou mesmo à vigência de organizações instituídas (Esta-do, Igreja, etc) como mantenedores da decadência. Até porque Nietzscheexplicita sua crítica direta tanto àqueles que denominou de livres-pen-sadores, trabalhadores filosóficos, quanto à propagação da incondicio-nalidade da obediência, que tem como produto o homem domesticado.O que se quer então assinalar é o fato de a crítica nietzschiana dirigir-seao ideal subjacente à filosofia da tradição, assim como às organizações instituídas, manifestamente expresso em seu conteúdo semântico.

“Amentirado ideal foi até agora o anátema lançado sobre a realidade, e,assim, a humanidade mesma tornou-se mendaz e falsa até em seus ins-tintos mais profundos”

Se o móvel condutor da crítica passa pela denúncia do caráterrelacional que mantém entre si religião, filosofia, ciência e ideal ascético,a mesma não tem como intento produtor promover a salvação da huma-nidade. Daí ser complicado vincular o discurso de Nietzsche a ímpetosrevolucionários ou salvacionistas. Todavia, o que permite esta ou aque-la vinculação é a sua dificuldade de compreensão.

Em  Ecce homo  afir-ma: “Aqueles que acreditaram ter compreendido algo sobre o meu pro-pósito, haviam me refeito à sua imagem – muitas vezes um oposto doque eu sou, um ‘idealista’, por exemplo. Aqueles que nada haviam com-preendido de mim, negaram que eu tivesse qualquer importância” , Por que escrevo tão bons livros, § 1). Essas afirmações dirigem-seaos seus contemporâneos que intentaram tecer comentários sobre os seustextos sem ao menos conseguir compreendê-los. É preciso salientar queNietzsche não esperava por isso, uma vez que, inclusive, se declaravapóstumo, querendo salientar com isso a incompatibilidade signo/signi-ficado temporal que a ausência de vivências determina. Seus contempo-râneos não poderiam compreendê-lo: o sistema semântico deles era de-masiado hermético, suas vivências demasiado estreitas.

Daí a impossi-bilidade de compreensão, surgindo apenas dissimulações via negaçãopela recusa, ou uma expressão como auto-leitura.É preciso salientar que o texto nietzschiano é, de um lado, seleti-vo; ele não escreve para as massas, não espera que todos o compreen-dam: ”Não  quero  ‘crentes’; penso que sou demais malicioso para ‘crer’em mim mesmo, e jamais escrevo às massas”, Por que sou umdestino, § 1). Mas, de outro, não autoriza quaisquer usos arbitrários quese façam dele: “Tenho um receio pavoroso que um dia me  canonizem: compreender-se-á porque me  adianto  em publicar este livro: ele deveimpedir que me tomem à sua vontade”, Por que sou um desti-no, § 1). Contudo, o cerne da questão está em determinar critérios que aum mesmo tempo legitimem uma interpretação sem que essa adultere a exposição. Mas a especificidade de um mesmo texto conter uma diver-sidade de possibilidades dificulta a determinação de uma unidade emtermos de compreensão e exposição.Há controvérsias marcantes que perpassam as diversas abordagensdos textos de Nietzsche, pois ainda que a transvaloração dos valores, oideal ascético, a vontade de potência, o além-do-homem, o eterno retornosejam tematizados por seus intérpretes, os mesmos divergem com relaçãotanto ao estilo quanto ao móvel condutor da crítica. Isso sem falar naforma de apresentação mesma. Essa diversidade apresenta-se como umproblema que, se não é passível de uma definição conclusiva em termosde determinar a legitimidade ou não de um dado tratamento de umadada interpretação, requer ao menos uma tematização das circunscri-ções promovidas pelos intérpretes de Nietzsche com relação ao conjuntode sua obra. A leitura que Gilles Deleuze faz de Nietzsche é um exem-plo notório de singularidade em termos de interpretação, enquanto centra-da, de um lado, na definição de um estilo aforístico e, de outro, na ca-racterização de seu pensamento como primordialmente nômade.A interpretação deleuziana se insere dentre as diversas possibili-dades de compreensão dos textos de Nietzsche, cuja especificidade deabordagem do pensador alemão consistiu, já no texto   Nietzsche e a filo-sofia , em conectar a interpretação e a avaliação a relações de forças e devontades de potência.

Desse modo, o sentido e o valor, temas centraisda filosofia nietzschiana, passam a ser manifestos por essas relaçõesenquanto, inclusive, recusa terminante de qualquer recurso à consciên-cia ou ao eu cognoscente. Na sua visão, o discurso filosófico nietzschi-ano contrapõe-se diretamente à metafísica, o que requer a não inclusãode Nietzsche junto aos filósofos da tradição; uma vez que a introduçãodos conceitos de sentido e de valor inauguram uma nova forma de abor-dagem, a filosofia passa a ser uma sintomatologia, uma semiologia. “Adualidade metafísica da aparência e da essência e, também, a relaçãocientífica do efeito e da causa, é substituída por Nietzsche pela correla-ção entre fenômeno e sentido” (Deleuze 1, p. 03). Essas noções abalamas crenças metafísicas, solapam os fundamentos das construções argumentativas da tradição ao retirarem o predicativo do fenômeno e conduzi-lo à interpretação. “Não existem fenômenos morais, mas so-mente uma interpretação moral dos fenômenos” .

 

 

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