SOBRE AS INTERPRETAÇÕES DO CONFRONTO MARX E STIRNER

DO INDIVIDUO

 

 

 

 

 

 

 

Ao longo deste trabalho, buscamos enfatizar que distinção entre Stirner e Marx se coloca no plano ontológico. Trata-se, propriamente, da distinção entre “uma concepção de mundo calibrada por uma filosofia da autoconsciência, enervada pela contradição entre essência e existência” e “uma ontologia na qual o ser só é reconhecido pela identificação à objetividade, em especial à objetividade social /…/”.

 

Ao nosso ver, a estes que iremos mencionar, escapa tal percepção, o que dá lugar a interpretações parciais e equivocadas no que se refere a Stirner e, principalmente, no tocante a Marx. Em verdade, todos o analisam a partir de um prisma político, não levando em conta o objeto ao qual se dedica no período emque redige A Ideologia Alemã: a crítica da filosofia especulativa, especificamente nesta obra, a filosofia especulativa de talhe neo-hegeliano.

 

Auguste Cornu e Mario Rossi, comentadores situados no campo do marxismo, em suas abordagens acerca de A Ideologia Alemã, muito embora produzam apresentações que pretendem aclarar as determinações mais fundamentais da crítica a Stirner, oferecem leituras que, julgamos, comprometem tanto a compreensão do pensamento de Marx quanto de Stirner.

 

No que diz respeito a Marx, tais intérpretes identificam seu pensamento sob o rótulo de “materialismo histórico” – termo que, aliás, não comparece no texto marxiano-, o qual é entendido como um instrumento teórico que ele utiliza para chegar ao comunismo. Concebendo este último como fim necessário do movimento histórico, momento de resolução redentor da luta de classe, acabam por efetuar uma ligação confusa entre o pensamento marxiano e a prática revolucionária do proletariado.

Para Auguste Cornu, “eles [Marx e Engels] estabelecem de uma maneira mais sistemática e mais geral /…/ os princípios do materialismo histórico e do socialismo científico como fundamentos teóricos da luta classe do proletariado e fazem uma aplicação magistral na crítica da filosofia especulativa e do socialismo utópico”.

Quanto a Mario Rossi, discutindo a evolução do pensamento marxiano em direção à concepção materialista, afirma que “a nova concepção que se delineia agora na mente de Marx e Engels e que encontra em ’A Ideologia Alemã sua primeira formulação rigorosa, não quer substituir ideologia por ideologia. Ela deve pôr-se a si mesma em uma relação orgânica com as condições, de sorte que, por um lado, se reconheça como resultado de um movimento da história, e da história da produção humana, e, por outro, se concentre como força de contra-condicionamento das coisas como motor da ação revolucionária”.

Enfatizando o caráter determinante da atividade material em relação à consciência e à estrutura social, Cornu e Rossi demonstram não compreender adeterminação marxiana da atividade sensível como “forma subjetiva”, separando o desenvolvimento das forças produtivas do desenvolvimento das relações sociais e das formas de consciência, não percebendo que se trata de momentos de um mesmo processo.

 

Assim sendo, não percebem que Marx identifica na própria atividade dos indivíduos o princípio efetivador da mundaneidade humana, o caráter essencial objetivador do homem, nem tampouco a particular contraditoriedade que caracterizou a marcha do desenvolvimento das formas de interatividade sob a égide da propriedade privada: o fato daquele desenvolvimento ter-se dado num quadro de cisão e de antagonismos, os quais restringem a manifestação do ser genérico dos indivíduos. Por isso, o comunismo aparece quase sempre como um telos ao qual a realidade deve tender, e não enquanto um modo histórico-social no qual – ultrapassados os entraves da propriedade privada a partir das possibilidades dadas na própria realidade – a cooperação dos indivíduos dar-se-ia livremente, não mais de modo coercitivo, mas de uma maneira voluntária.

 

No que tange propriamente à crítica de Marx a Stirner, ambos a relacionam com a “concepção materialista da história”. Mario Rossi considera que se trata de um “cânon interpretativo da história” e  afirma que a empresa crítica de Marx “contrapõe ao individualismo de Stirner, pura e simplesmente, mas também rigorosamente, a concepção materialista da história”.

 

 Ambos, demonstram não perceber a questão de fundo das proposituras de Stirner, ou seja, a afirmação da individualidade contra a objetividade e, por via de conseqüência, não percebem o núcleo da refutação marxiana. Enfim, não apreendem que a oposição de Marx a Stirner se encontra matrizada pelo problema fundamental da compreensão das determinações essenciais do desenvolvimento da individualidade humana, do ser social dos homens.

 

 

No que se refere à questão ontológica do pensamento stirneriano, Giorgio Penzo é o único que a refere. Segundo ele, “o núcleo do filosofar stirneriano consiste em evidenciar a relação entre sujeito e objeto”, apontando que esta relação se dá “no nível existencial e, de certo modo, também, no nível ontológico, uma vez que denota a essência própria do homem como único que procura superar continuamente o momento de dependência do sujeito em relação ao objeto”.

No entanto, apontando que Marx não compreendeu “a dimensão ontológica da revolta, que se exprime apenas em uma dimensão existencial na temática da relação entre sujeito e objeto, Penzo põe como centro da crítica marxiana a refutação à revolta, afirmando que Marx se limita a “contrapor o momento histórico da revolução àquele da revolta, que em sua opinião seria fantástica e ainda idealista”.

Penzo também não percebe que o ponto determinante da crítica de Marx é exatamente a premissa básica sobre a qual se ergue a revolta stirneriana, que vem a ser a dissolução da objetividade. Neste sentido, julgamos que é propriamente ele quem não compreende a dimensão ontológica do pensamento e da crítica de Marx.

 

Por fim, cabe uma análise mais detalhada sobre o único estudo brasileiro que localizamos sobre o assunto, efetuado por José Crisóstomo de Souza: A Questão da Individualidade A crítica do humano e do social na polêmica Stirner Marx. Sua abordagem a Stirner segue o padrão clássico das interpretações, não referindo a questão ontológica que aludimos. Todavia, o tratamento conferido a Marx, julgamos, é seriamente equivocado, o que faz com que o autor incorra em certas impropriedades.

Dá a entender que a extensa crítica marxiana é suscitada pelo risco que Stirner oferecia a Marx. Visando a defender sua superioridade (sobre o quê?), Marx procura “exasperadamente refutar Stirner”. Segundo ele, evitando “cuidadosamente medir-se /…/ como filósofo” com aqueles que critica em A Ideologia Alemã, “é possível que ele próprio ainda esteja, aí, mais comprometido com a filosofia alemã e com a ‘ideológica’ esquerda hegeliana do que geralmente se imagina”. Não fundamentando estas afirmações, conclui que essa obra talvez “represente antes um esforço de defesa do que propriamente uma demonstração de inquestionável superioridade”.

 

Outrossim, considera que “têm razão os autores que vêem no ‘São Max’ uma catilinária forçada e mesmo grosseira, não somente cheia de adjetivações mas também – o que é mais importante – envolvendo ocultamentos e distorções”. Não exemplificando estes ocultamentos e distorções, diz que apesar de não se tratar apenas disso, o texto de Marx demonstra “que os debates dos filósofos – que nisso mostram sua natureza comum à dos outros mortais – muitas vezes não são modelos de correção ou mesmo de honestidade intelectual.

Crisóstomo apresenta o objetivo de sua análise dizendo que “no caso do embate Stirner versus Marx, /…/ o pai do chamado socialismo científico se vê obrigado a envolver-se com questões a que geralmente pouco refere. Como a individualidade, o (não) fundamento dos ideais políticos e da obrigação moral, e mesmo os temas do corpo e do desejo”, considerando que neste embate “Marx exibe uma dimensão menos visível do seu pensamento: seu alcance prático (re?)instaurador dos valores da comunidade, e sua preocupação com as pretensões do indivíduo moderno ‘isolado’ ”. Pretende que seu “livro, entre outras coisas, contribui para revelar, de modo particularmente vivo, certos aspectos latentes da concepção original de Marx, que podem bem ajudar a dar conta de sua crise nesse final de século. Como algumas contradições com a subjetividade moderna (ou, como já querem alguns, pós-moderna), ou mesmo a dimensão ‘anticriacionista’ de sua noção de praxis”.

 

Tais afirmações são, para nós, de início, equivocadas e demonstram que o autor não compreende que o problema da individualidade, isto é, a determinação de seu ser e o vislumbre de sua plena efetivação, constitui propriamente o centro do pensamento de Marx, bem como não apreende o que Marx determina como praxis.

 

Pondo como centro da polêmica a oposição entre consciência e mundo, Crisóstomo indica que Stirner, “na luta contra o caráter impositivo do mundo dado, tanto natural quanto social”, visa a “uma transformação da relação do homem com o mundo pela mediação da consciência, fenômeno que para Marx parece não existir ou ter qualquer relevância”.

 

 Isto posto, podemos perceber sua 52desconsideração pelas afirmações de Marx sobre o fundamento da consciência, bem como a não percepção de que um dos pontos centrais da crítica marxiana a Stirner é a cisão que este opera entre consciência e mundo. Com efeito, a mediação homem-mundo se faz, para Marx, através da atividade sensível. Tal atividade, embora não se restrinja a ela, engloba a atividade da consciência, na medida em que é “dação de forma subjetiva”.

 

Segundo Crisóstomo, a Marx “só falta /…/ afirmar /…/ que também o indivíduo é do mundo, que é sua propriedade ou atributo; uma vez que aparentemente o ‘mundo’ (depois de Kant, ‘apenas’ uma idéia) é, para Marx, de si mesmo. O materialismo marxiano começaria então a se apresentar mais visivelmente como um gênero do ‘substancialismo’ ”. Convicto de que Marx concede “ao mundo a autonomia que nega ao indivíduo”, aponta que “na concepção marxiana, o real é uma coisa e as idéias são outra; melhor ainda, as idéias não são nada: de um lado está o real e do outro estão elas, o irreal”.

 

Sobre isso, adensa que “Para Marx, não parece haver qualquer desenvolvimento relevante da consciência ou do indivíduo por sobre o ‘real’ ”, pois que “Na sua concepção, o que encontra espaço privilegiado é a evolução de um ‘grande real’ material; evolução acompanhada pela consciência, de um modo geral com atraso”. Conclui que “Em Marx, temos o que se pode chamar de um ‘achatamento’ da consciência em cima do real, como expressão e representação (mais ou menos fiel) do mesmo. Nele a consciência ou a subjetividade fica despojada de toda atividade própria; e qualquer suposto desenvolvimento da mesma, independente do ‘real’, (isto é, do social), será simplesmente uma ‘dissociação’, decorrente da divisão do trabalho”.

A refutação destas afirmações encontra-se já suficientemente exposta, a partir das palavras do próprio Marx. Mas vale reenfatizar que Marx não nega autonomia aos indivíduos e a confere ao mundo. Para ele, o mundo no qual vivem é propriamente produto do processo contínuo de autonomia dos indivíduos, a partir de sua interatividade, frente às barreiras naturais e sociais, mesmo e apesar deste processo se dar de modo contraditório.

 

Ademais, Marx não limita o indivíduo 53como propriedade do mundo, tampouco julga o mundo como propriedade de si mesmo, pois o mundo é, conforme ele, produto da objetivação das forças essenciais humanas. A substância do mundo é produto da atividade social dos homens. Além do mais, para Marx, as idéias são algo: idéias sobre o real. Marx não nega a subjetividade tampouco a atividade da consciência; o que nega é a autonomia e o caráter operativo da consciência. O que podemos inferir, aqui, é que Crisóstomo negligencia totalmente o conteúdo de toda obra anterior de Marx e, particularmente, da primeira parte de A Ideologia Alemã. Por fim, permitimo-nos uma observação: o fato de Kant ter reduzido o mundo a ‘apenas’ uma idéia, não significa que ele realmente o seja.

 

Reafirmando sua posição de que “o que não se deve perder de vista /…/ é a preocupação de Marx em sustentar a afirmação de coisa objetiva por sobre o homem, também objeto e objetivo”, Crisóstomo indica que, para Marx, “Ele é um ser objetivo /…/ e sensível, o que quer dizer também ser passivo: ‘Ter sentidos quer dizer padecer /…/ e, como ‘ser objetivo sensível’ o homem ‘é um ser que padece’”.

 

 A questão da objetividade do ser e, especificamente, do caráter objetivo do ser humano, também já a esclarecemos. O que gostaríamos de ressaltar é que a determinação do padecimento não implica passividade, mas remete precisamente ao seu contrário, ou seja, à determinação de que o homem é afetado, mobilizado por outros seres, o que o impele a pôr em ação suas forças essenciais.

 

Por outro lado, não encontramos em nossa investigação de A Ideologia Alemã nenhuma afirmação que justifique a conclusão de José Crisóstomo de que “Para Marx, a história desemboca no homem comunista, e não por qualquer evolução pessoal ou própria de sua consciência, mas do ‘grande real’ histórico, que aquela apenas reflete”. Como ele também não indica a referência textual, podemos supor que trata-se de sua interpretação, e não de uma determinação do próprio Marx.

 

Finalmente, contrariamente ao que argumenta Crisóstomo, Marx não investe contra Stirner pelo fato de que ele pretende destruir teoricamente tudo, mas sim pelo fato de que ao somente destruir teoricamente tudo, Stirner não destrói concretamente, efetivamente, nada.

 

Além disso, Marx leva em conta, sim, o fato de Stirner querer se pôr acima do mundo, bem como busca determinar o “tipo de consciência”que Stirner está descrevendo. Para Marx, Stirner, ao pretender superar apenas idealmente as contradições do mundo, revela e reconhece a impotência do indivíduo frente ao mundo. Neste sentido, considera tal perspectiva conservadora e reacionária, pois veda qualquer perspectiva revolucionária.

 

 

 

 

 

 

 

 

image_pdfScaricare PDFimage_printStampare testo
(Visited 56 times, 1 visits today)