STIRNER NO MOVIMENTO JOVEM HEGELIANO

M2

Como aponta Lawrence Stepelevich, “o pensamento original de Hegel” era “explicitamente centrado sobre a restauração da metafísica, teologia especulativa e da teoria social e política conservadora”. Seus alunos e seguidores, então, dividiram-se entre aqueles que levaram esse pensamento adiante ortodoxamente e aqueles que, partindo do próprio sistema hegeliano, se opuseram ao filósofo, numa postura “dialética antitética”.


Quando Stirner escreveu seu O Único e a sua Propriedade, em 1844, estava chegando a uma das consequências dessa crítica, nos limites do movimento conhecido como Jovem Hegeliano. Mas para situarmos as concepções filosóficas da obra de Stirner, voltaremos às duas grandes obras que podemos considerar como marcos do princípio do movimento: A Vida de Jesus, examinada criticamente (1835), de David Strauss, e A Essência do Cristianismo (1841), de Ludwig Feuerbach.
Tomando essas duas obras como ponto de partida, e usando uma classificação baueriana (posteriormente também usada por Marx), podemos dizer que o primeiro desdobramento de Hegel na esquerda hegeliana se deu pelo viés da substância. Strauss desenvolve uma crítica da religião deslocando a encarnação de Deus do indivíduo Jesus Cristo para a humanidad. Feuerbach, por sua vez, demonstra que Deus é a essência objetiva do Homem, e que a teologia é uma antropologia, fazendo uma distinção aqui também entre o indivíduo (particular) e a espécie – o Homem-genérico, Gattungswesen.
Logo que publicadas, ambas as obras foram seguidas por dois textos de um outro jovem hegeliano, que justamente mudou a direção do movimento para o aspecto anti-substancialista, para a concepção hegeliana de autoconsciência (Selbstbewußtsein): o teólogo e filósofo Bruno Bauer. Primeiro, ainda apresentando-se em sua primeira vertente hegeliana, o hegelianismo de direita de Philip Marheineke, Bauer escreve uma resposta ao livro de Strauss.

Depois, já imerso nas ideias hegelianas “revolucionárias”, Bauer irá publicar um panfleto, intitulado A Trombeta do Juízo Final Contra Hegel Ateu e Anticristo: um ultimado (1841), onde diferenciará dois caminhos para a leitura de Hegel: o da substância e o da autoconsciência. O segundo, adotado por Bauer, é o modo que o levará à crítica radical da religião, que todo jovem hegeliano pretendia. E dentre os jovens alunos de Hegel que se inclinaram mais às posições de Bauer está Max Stirner, que escreve um artigo elogioso sobre a Trombeta do companheiro. A partir daí, Stirner passa a frequentar o grupo que se reunia em torno de Bauer – os Livres (Die Freien), o núcleo mais radical da esquerda hegeliana– onde irá amadurecer suas ideias, primeiramente mais próximas do amigo, até criar um novo rompimento (e o mais radical) com a filosofia, não só de Hegel, Feuerbach, Moses Heß, Proudhon, como também do próprio Bruno Bauer.
Dentro da dialética hegeliana, Stirner constrói sua caracterização da modernidade, em sua história do desenvolvimento de “uma vida humana”, quando compara a época coroada por Hegel com a juventude, o fim da infância – ou o fim do primeiro estágio do pensamento e da história ocidental – como um momento de confronto, e, logo depois, a condescendência, com os “pensamentos abstratos”, ou seja, as ideias. Stirner (como Hegel) considera que o “jovem” possui o sentimento revolucionário, inspirado por ideais. Stepelevich, sobre isso, desenvolve:

Estes sentimentos da juventude como sentimento-de-si, que coloca os jovens num “ponto de vista celestial”, constitui uma base importante da crítica de Stirner ao projeto de Feuerbach como um projeto adolescente, entendido como tal apenas por alguém que tinha ele próprio transcendido à adolescência – em resumo , ein Mann (um homem). Stirner considera-se não apenas um Mann (homem), mas também um homem singular, um Einziger (único).

 

“Ao projeto de Feuerbach” e, podemos acrescentar, de modo geral, a todo movimento hegeliano. Stirner reage a Hegel quando critica o “império dos grandes sistemas”, o “mundo das grandes abstrações”. Ele rejeita as “ideias fixas”, que acompanham a filosofia desde os primórdios. Para Franco Volpi, como “[p]ríncipe dos iconoclastas modernos, Stirner pretende por abaixo todos os sistemas filosóficos, toda e qualquer abstração ou ideia (…)”.

Hegel e os hegelianos de direita, como monarquistas protestantes e conservadores, associaram a Ideia ao Estado e à religião. Feuerbach e Strauss (e Moses Heß, por exemplo, na sociedade) haviam deslocado nossa essência, também um ideal, de uma entidade religiosa para uma entidade humana. Stirner entende que isso não muda o fato de a ideia ainda existir (transcendente e misticamente) e, portanto, esses primeiros jovens hegelianos ainda permaneciam “adolescentes”,

ideológicos (ou “possuídos, como colocará n’O Único).
É expressamente a des-substancialização da filosofia inaugurada por Bruno Bauer que fará Stirner se aproximar deste filósofo. Primeiro através de uma resenha entusiasmada da Trombeta de Bauer, tomando-a como uma crítica “livre e inteligente”, um “ataque radical sobre Hegel”, num livro de “deliciosa mistificação”; e depois na aproximação direta com Os Livres, círculo liderado por Bauer que passou a frequentar. As ideias de Stirner podem ser localizadas como sucessoras da filosofia de Bauer, desenvolvendo, do indivíduo universalizado baueriano – decorrente da sua filosofia pós-hegeliana da autoconsciência e da liberdade – o seu indivíduo particular (o único).
Mas do mesmo modo que o radicalismo de Bauer acalorou o debate jovem hegeliano, a divergência de Stirner para uma corrente própria e ainda mais radical movimentou todo o cenário em que ele se encontrava. O Único e sua Propriedade recebeu, ainda em 1845, três críticas, de Szeliga, Feuerbach e Moses Heß, às quais Stirner respondeu no artigo Os Críticos de Stirner, do mesmo ano. No ano seguinte foi criticado por Karl Schmidt, em O Reino do Intelecto e o Indivíduo. Mais tarde foi criticado por Kuno Fischer, num texto de 1847, chamado Os Sofistas Modernos, este também respondido por Stirner no mesmo ano, no artigo Os Filósofos Reacionários, assinando como G. Edward. A principal tese defendida por seus críticos é que seu único, ou o seu egoísta, são também ideias absolutizadas e, como as ideias criticadas por Stirner, também sacralizadas. Feuerbach, por exemplo, em A Essência do Cristianismo em relação com O Único e a sua Propriedade (1845), vai questiona:

O Único afirma que tem sua causa em nada depositada. Mas não é este “nada” um predicado de Deus, e não é a sentença “Deus é nada”, uma expressão da consciência religiosa? Então, o Egoísta tem ainda, apesar de tudo, baseado seus sentimentos em Deus! Então ele ainda pertence aos “ateístas devotos”

A resposta poderia ser encontrada no próprio O Único, escrito em primeira pessoa e em linguagem inteiramente contingencial. Mas Stirner responde diretamente no outro texto (referindo-se a ele mesmo agora na terceira pessoa):
Stirner fala do Único e diz imediatamente: Nomes, o nome não é você. Ele articula a palavra, logo quando ele chama isto de Único, acrescenta, não obstante, que o Único é apenas um nome. Ele, portanto, tem em mente alguma coisa diferente do que ele diz, como talvez alguém que chama você de Ludwig mas não tem em mente um Ludwig em geral e sim você, para o que ele não tem palavras.

E continua, em resposta aos textos de Szeliga (uma crítica publicada na Norddetschen Blätter), Feuerbach (A Essência do Cristianismo em relação com O Único e a sua Propriedade) e Moses Heß (Os Últimos Filósofos):

Szeliga se dá ao trabalho de mostrar que o “Único”, medido pelo seu próprio princípio de ver fantasmas em todo lugar, torna-se o fantasma de todos os fantasmas. Escapa-lhe que o Único é uma frase vazia. Que ele próprio, Szeliga, é o teor dessa frase, ele permite que isso escape de sua atenção. (…) Stirner aventura-se a dizer que Feuerbach, Heß e Szeliga são egoístas. Com isso, Stirner, claro, faz o julgamento idêntico como quando ele diz que Feuerbach não faz absolutamente nada mais que o que é Feuerbachiano, que Heß não faz nada mais que o que é Hessiano, e Szeliga não faz nada exceto o que é Szeliganiano. No entanto, apenas Stirner lhes deu um título completamente notório.

O impacto do livro de Max Stirner pode ser medido na mudança de direção do movimento jovem hegeliano – e quiçá no seu fim. Bruno Bauer demonstra-se tocado pelas posições críticas de Stirner num texto de 1845, intitulado Caracterização de Feuerbach, de tal modo que Marx e Engels chegam a dizer que Bauer copia “desastradamente” Stirner para criticar Feuerbach44 – ainda que no mesmo texto Bauer também faça uma crítica à Stirner parecida com a de Feuerbach, sugerindo que o único stirneriano, o egoísta, seria apenas o oposto, a negação abstrata, o outro lado, do homem genérico de Feuerbach (“o comunitário”,“o sagrado”, etc.). Feuerbach, mais tarde, também apresenta mudanças na relação entre espécie e indivíduo, apresentando um gênero menos “inflado” e intrinsecamente ligado ao indivíduo. O mesmo ocorre com Marx e Engels que, em 1844 criticavam Bruno Bauer e seus consortes de modo clara e assumidamente feuerbachiano, mas em 1845 (ano que caracteriza o conhecido “corte epistemológico” de Marx), após a publicação d’O Único, rompem com Feuerbach, numa crítica justamente à concepção de essência-genérica deste último, como “generalidade interna, muda, que une muitos indivíduos de modo natural”.
Stepelevich descreve esse quadro pós-Único: “Depois do trabalho de Stirner, Feuerbach praticamente deixou de publicar, e Marx renunciou a seu papel como discípulo de Feuerbach com a sua breve, e crítica, Teses ad Feuerbach”. Em publicações dos anos de 1860, Feuerbach, na verdade, admite que “pouco restava do conceito-chave de A Essência do Cristianismo, que foi o principal alvo da crítica de Stirner. (…) Feuerbach apresenta uma teoria do conhecimento que foi baseada na intuição sensível imediata de particulares”.
Esse é o quadro histórico-ideológico em que se localiza o pensamento de Stirner. Os desdobramentos de uma tendência propriamente stirneriana só aparecerão no fim do século XIX, muito depois da morte do filósofo, a partir da recuperação de sua obra feita pelo poeta anarquista John Henry Mackay. Mas estas tendências, ou simplesmente sua influência, serão mais bem entendidas numa análise das direções dadas ao seu pensamento, na filosofia e na política.

 

 

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